13 de outubro de 2025
Serei ousada em afirmar que não vivemos mais na era da pós-verdade. O conceito, que marcou o início dos anos 2010, descrevia um fenômeno importante: o declínio da objetividade e o predomínio das emoções e convicções pessoais sobre os fatos. A verdade havia perdido o estatuto de referência comum, e o real se tornara campo de disputa simbólica. No entanto, o que testemunhamos hoje é um movimento mais profundo. Não se trata apenas de distorcer o real, mas de substituí-lo. Entramos na era da crença.
A pós-verdade ainda pressupunha a existência de um mundo compartilhado, onde fatos poderiam ser manipulados, negados ou reinterpretados. A crença, por sua vez, prescinde dessa referência. Não há mais um real comum a ser distorcido, há realidades paralelas, criadas e mantidas pela adesão emocional. A crença não se define pela veracidade, mas pela capacidade de oferecer sentido e pertencimento. Ela não precisa convencer, ela precisa confortar.
Esse deslocamento tem implicações políticas, cognitivas e morais. A crença é mais resistente que a mentira porque não se apoia na lógica, mas na afetividade. Ela atua num nível anterior ao da razão, onde o vínculo emocional se sobrepõe à análise. Em uma sociedade saturada de informação, o sujeito não busca compreender, busca estabilizar-se. Quando a dúvida se torna insuportável, a crença aparece como forma de descanso psíquico.
O filósofo Byung-Chul Han descreve esse fenômeno sob o nome de “infocracia”. Nunca houve tanta informação disponível, e nunca estivemos tão desorientados. O excesso de estímulos, em vez de ampliar a capacidade crítica, produz fadiga cognitiva. Nesse cenário, o pensamento cede espaço à confiança e essa confiança, repetida e reforçada, transforma-se em fé.
A neurociência de António Damásio ajuda a compreender por que a crença opera com tanta força. Em obras como “O Erro de Descartes” e “E o cérebro criou o Homem”, o autor demonstra que razão e emoção são processos interdependentes. O homem, diz Damásio, está evoluindo para conciliar emoção e razão, pois a racionalidade pura é uma ficção filosófica. Pensamos com o corpo tanto quanto com o intelecto. As emoções orientam a tomada de decisão, moldam o julgamento e ancoram a consciência.
Damásio define a mente como “uma sucessão de representações criadas através de sistemas visuais, auditivos, táteis e, muito frequentemente, das informações fornecidas pelo próprio corpo sobre o que está acontecendo dentro dele”. Nesse modelo, a crença surge como produto natural da tentativa do cérebro de construir coerência emocional. O ser humano acredita porque precisa dar continuidade ao sentido de si.
A emoção, explica o neurocientista, é um conjunto de respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo diante de um evento, um programa fisiológico que altera batimentos cardíacos, respiração e atenção. Emoção é corpo em movimento, preparando-se para reagir. A crença, portanto, pode ser entendida como uma forma de autorregulação emocional diante do incerto. O cérebro busca coerência afetiva antes de buscar coerência lógica.
Esse mecanismo, profundamente humano, é também o ponto de vulnerabilidade das democracias contemporâneas. A política e a tecnologia compreenderam que a adesão emocional é mais eficaz do que a persuasão racional. O poder, hoje, não se impõe pela coerência dos argumentos, mas pela capacidade de inspirar fé. O líder que desperta crença supera o que apenas apresenta ideias. A emoção mobiliza; a razão, apenas propõe.
É esse desequilíbrio que leva Damásio a alertar para a bancarrota espiritual e moral das sociedades modernas. Nas últimas décadas, observa o autor, o grande público aceitou, com mínima resistência, a transformação da informação em entretenimento. O modelo comercial de mídia reduziu a complexidade do debate público à lógica do consumo. As sociedades, inclusive as menos desenvolvidas, imitaram o formato e, com ele, perderam densidade moral. Quando o pensamento se torna espetáculo, a reflexão cede lugar à distração, e o discernimento se torna obsoleto.
O alerta de Damásio é preciso: a crise não é apenas econômica ou institucional, é espiritual. Uma sociedade que transforma tudo em espetáculo, inclusive a dor, perde a capacidade de sentir de forma autêntica. E, quando a emoção é instrumentalizada, a razão degenera em cálculo. O resultado é um vazio, uma humanidade hiperconectada, mas espiritualmente exausta e intelectualmente desorientada.
O debate democrático se converteu em ritual de confirmação. Curtir, compartilhar e engajar são gestos de fé. O pertencimento tornou-se mais importante do que a verdade. E, nesse cenário, a dúvida — condição essencial do pensamento — passou a ser vista como ameaça.
Reabilitar o espaço do real é o desafio intelectual e político do nosso tempo. Recolocar razão e emoção em equilíbrio, restituir à dúvida o seu papel de motor da consciência, e resgatar o valor da verdade como condição do convívio democrático.
A era da pós-verdade nos mostrou que os fatos podem ser distorcidos. A era da crença demonstra que eles podem deixar de importar. Quando o real perde o seu valor, o pensamento crítico se torna a última forma de resistência. Pensar, sentir e duvidar são hoje atos profundamente políticos. Sem eles, não há democracia possível.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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