1 de outubro de 2025
Por Vânia Barbosa do Nascimento*
Inspirada no artigo de Benedito Mariano, coordenador do Núcleo de Segurança Pública na Democracia do IREE, publicado recentemente na revista Libertas, “A segurança pública da democracia e o enfrentamento ao crime organizado”, compartilho algumas reflexões sobre um dos desafios que hoje ameaçam a integridade do Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de reconhecer as implicações da infiltração do crime organizado nas bases que sustentam essa política pública relevante para o Brasil. Sem uma política de segurança pública robusta e coerente, continuaremos a conviver com crises que atravessam os mais diversos setores sociais.
O avanço do crime organizado já não se limita às margens da sociedade: ele bate à nossa porta e infiltra-se nas instituições. O setor da saúde, essencial para a vida e para a dignidade da população, tornou-se alvo de práticas criminosas que corroem sua integridade. Casos envolvendo empresas de fachada, contratos suspeitos e desvios em serviços municipais são apenas a face mais visível de um problema sistêmico que compromete recursos públicos e fragiliza o atendimento à população.
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O mais preocupante, porém, não é apenas a existência dessas irregularidades, mas a conivência velada ou explícita de dirigentes políticos que, em vez de defender o interesse público, tornam-se cúmplices desse mecanismo perverso. Operações que chegaram a gerar expectativa de mudanças acabaram paralisadas, e o silêncio se impõe como regra. O sentimento de impunidade se fortalece, e a normalização desse estado de coisas passa a ser vista quase como parte inevitável do jogo político.
Nesse contexto, as eleições se aproximam e a justificativa da “governabilidade” parece servir de manto para encobrir os mais diversos conluios. O resultado é trágico: moldam-se as consciências e, com elas, as próprias políticas públicas, reduzidas a instrumentos que atendem a interesses mesquinhos em detrimento daquilo que realmente importa — garantir serviços de saúde de qualidade e ampliar as condições de vida digna da população.
Ainda mais alarmante é a incorporação de métodos típicos de milícias no interior das instituições públicas. Ou se paga, ou se está fora. Ou se obedece a uma lógica autoritária e distorcida, ou se é simplesmente descartado. Trabalhadores da saúde, diante desse cenário, sentem-se acuados, desmotivados e sem esperança.
A pergunta que se impõe é inevitável: como garantir políticas públicas virtuosas e sustentáveis em meio a essas práticas? A resposta, por ora, é desoladora. Enquanto o crime organizado continuar a capturar instituições, corromper consciências e ditar as regras do jogo, a construção de uma política pública de saúde verdadeiramente voltada ao cidadão será impossível.
*Vânia Barbosa do Nascimento é Professora Titular de Saúde Coletiva do Centro Universitário FMABC.
Por IREE
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