O risco Trump para a política ambiental do Brasil – IREE

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O risco Trump para a política ambiental do Brasil

4 de novembro de 2024

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Com a vitória de Donald Trump nas eleições nos Estados Unidos, o Brasil poderá enfrentar desafios significativos, especialmente no que diz respeito às políticas ambientais. Historicamente, Donald Trump e Lula têm visões opostas sobre temas como economia, democracia e governança. Contudo, para além dessas divergências ideológicas, o maior desafio que o novo mandato de Trump traz ao presidente Lula está nas políticas ambientais, crucialmente na defesa da Amazônia e nas relações que o Brasil pretende estabelecer na COP 30.

Durante seu primeiro mandato, Trump demonstrou uma postura abertamente hostil a regulamentações ambientais, retirando os EUA do Acordo de Paris e enfraquecendo as metas globais de redução de emissões. Em seu novo mandato, é provável que Trump continue a incentivar indústrias de combustíveis fósseis e a desregulamentar normas ambientais. Isso poderia reduzir a pressão internacional sobre o Brasil para controlar o desmatamento na Amazônia. Apesar de, a princípio, isso parecer um alívio para setores como o agronegócio e a mineração, essa falta de cobrança global pode enfraquecer o Brasil em áreas estratégicas, como investimentos sustentáveis e acordos comerciais com parceiros que vinculam relações econômicas a compromissos ambientais sólidos.

Em 2025, Belém sediará a COP30, um marco que posiciona a Amazônia no centro das discussões climáticas globais. Esse evento representa uma oportunidade única para o Brasil demonstrar liderança na preservação ambiental e atrair investimentos verdes, cada vez mais voltados para nações que assumem compromissos com a sustentabilidade. Entretanto, com o novo mandato de Trump e a recusa dos EUA em apoiar compromissos climáticos robustos, há o risco de esvaziamento da conferência. Outros países poderiam seguir o exemplo americano e reduzir suas metas ambientais, dificultando o avanço de acordos que protejam a floresta amazônica e beneficiem as comunidades locais.

Diante desse cenário, o governo Lula deve adotar uma resposta pragmática e dupla: internamente, reforçar políticas de combate ao desmatamento e promover um desenvolvimento sustentável; externamente, fortalecer alianças com nações que compartilhem a visão de preservação ambiental, como a União Europeia e alguns países da Ásia. Isso exige compromissos sólidos, que deixem claro que o Brasil está comprometido com a proteção da Amazônia, independentemente da postura dos EUA.

O Brasil também deve liderar esforços para assegurar que a COP30 não perca relevância. Esse esforço pode incluir uma diplomacia ativa para atrair lideranças globais e enfatizar que a proteção da Amazônia é uma prioridade internacional, que transcende governos e representa um compromisso com as gerações futuras.

É fundamental que o Brasil entenda o cenário político dos EUA sob uma perspectiva estratégica, não ideológica. Seja com Trump, ou tivesse sido com Kamala Harris, o Brasil deve afirmar sua autonomia geopolítica e reforçar seus laços com outras potências, assegurando que o desenvolvimento e a proteção de suas riquezas naturais não fiquem à mercê das relações com um único país. Essa postura pragmática e autônoma permitirá ao Brasil traçar seu caminho de desenvolvimento sustentável de forma independente, valorizando sua soberania e compromisso com o futuro do planeta.

Artigo atualizado em 6/11/2024



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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