25 de julho de 2025
Por Gabriela Farias e Samantha Maia
O agravamento das guerras e a política tarifária unilateral que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem impondo aos demais países são exemplos de como as instituições multilaterais não têm sido capazes de responder às crises do mundo.
Diversos países, entre eles o Brasil, têm reivindicado reformas na governança global em busca de maior participação nas decisões. Em discurso na abertura do Fórum Empresarial do BRICS, no Rio de Janeiro, no dia 5 de julho de 2025, o presidente do Brasil defendeu o multilateralismo como caminho para enfrentar as crises. “Diante do ressurgimento do protecionismo, cabe às nações emergentes defender o regime multilateral de comércio e reformar a arquitetura financeira internacional”, afirmou Lula.
O multilateralismo é uma forma de organização das relações internacionais baseada na cooperação entre diversos países por meio de instituições, regras comuns e negociações coletivas. O objetivo é buscar soluções conjuntas para acordos comerciais e desafios globais em temas como paz e segurança, meio ambiente, saúde e direitos humanos. Ele está diretamente ligado à reconstrução das relações internacionais no mundo pós-Segunda Guerra e ao interesse das nações mais ricas, como os Estados Unidos e o Reino Unido, de expandir o livre comércio.
Dessa forma, a ordem multilateral nasceu para garantir a paz e organizar o mundo para o crescimento do comércio global, sob liderança das potências econômicas. Em 1944, foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, durante a Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas (ONU) nasceu a partir da Conferência de São Francisco, realizada em 1945, quando a Carta das Nações Unidas foi elaborada e assinada por representantes de 50 países. Em 1947 foi assinado o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), com o objetivo de promover o livre comércio entre os países. Ele funcionou até 1995, quando foi substituído pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que institucionalizou o sistema multilateral de comércio.
Apesar das instituições multilaterais serem espaços de cooperação, existe forte assimetria entre os países refletida no poder desigual de voto e no direito de veto. O FMI e o Banco Mundial, por exemplo, foram criados sob a liderança dos EUA e do Reino Unido e serviram para expandir a influência dessas potências sobre a economia e a política de outros países.
Outro exemplo de assimetria de poder é o Conselho de Segurança da ONU, onde apenas cinco países têm poder de veto: EUA, Reino Unido, França, China e Rússia. Isso dá a eles o poder de bloquear decisões globais tomadas pela maioria. Há pelo menos duas décadas, o Brasil reivindica a ampliação do número de assentos permanentes para a entrada de países emergentes.
Ao longo do tempo, porém, a relação de forças foi mudando devido ao surgimento de novos polos de influência, com destaque para a China, que hoje já ocupa uma posição de potência mundial. Nações do Sul Global começaram a encontrar nas instituições multilaterais instâncias para negociar maior participação e cobrar compensação das desigualdades históricas.
Nas Conferências do Clima (COP), países menos desenvolvidos cobram que as nações ricas se responsabilizem pelo financiamento climático por terem sido as maiores responsáveis pela degradação do meio ambiente. Criada para promover a abertura de mercados, a OMC também se tornou espaço de reivindicação por regras mais justas de comércio e, com o avanço de concorrentes como a China, os EUA passaram a abandonar a organização.
Em 2009, o BRICS — formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — surge com o objetivo de fortalecer a cooperação entre economias emergentes que vinham ganhando peso no cenário mundial, buscando aumentar sua influência política e econômica global. A iniciativa reflete a dificuldade de avançar em negociações ou concretizar acordos nas instituições multilaterais que atendam aos interesses dos países periféricos.
Por outro lado, os Estados Unidos têm caminhado para uma posição mais protecionista, privilegiando negociações bilaterais. Com o governo Trump, os EUA saíram de fóruns multilaterais como a Unesco, o Acordo de Paris, a OMS e o Conselho de Direitos Humanos, mas, já desde os anos 1990, o país vem se afastando do multilateralismo que ajudou a construir.
Por Gabriela Farias
Leia também
O papel dos EUA no programa nuclear do Irã
Continue lendo...
O que muda com o acordo entre Mercosul e União Europeia?
Continue lendo...
OTAN: garantia de paz ou motor de disputas?
Continue lendo...