O propósito das Forças Armadas do Brasil – IREE

Análises e Editorial

O propósito das Forças Armadas do Brasil

Por General Fernando Azevedo e Silva* 

Os militares têm o propósito de manter a paz e a estabilidade. Isso é ambicioso e complexo. Exige preparo, atenção permanente e entendimentos elaborados dos seus líderes. O sucesso da manutenção da paz depende de atitudes que são imprescindíveis e precisam do entendimento coletivo, da sociedade e do conjunto dos dirigentes políticos. A primeira é manter-se forte o suficiente para dissuadir, para não se se fazer compensar as aventuras de qualquer natureza. Outra é a tarefa de antecipar soluções para evitar os potenciais riscos. Por fim, as Forças Armadas devem manter-se isentas dos embates políticos que são próprios da democracia.

No Brasil, a histórica inexistência de conflitos afasta a percepção real das ameaças. A normalidade continuada faz esquecer que a paz é uma condição trabalhada, não um direito divino ou sorte. Estabelecer níveis adequados à dissuasão depende do entendimento coletivo sobre o valor da paz. Antecipar soluções contra ameaças é mais complexo. Evitar nem sempre é reconhecido, não provoca consequências evidentes nas vidas das pessoas. Exige preparo sofisticado das lideranças para antever, sentir os sinais e avaliar com acerto os potenciais riscos. Exige duras decisões de abandonar pequenos ganhos imediatos para garantir a segurança no ambiente futuro. É necessário coragem e comprometimento com valores maiores para resistir às seduções do momento.

A isenção das disputas de poder e das oscilações naturais de uma democracia é sinal de maturidade das Forças Armadas. Essa isenção é o que legitima a capacidade de solucionar conflitos, de arbitrar sem o uso da violência. As instituições militares são permanentes na linha do tempo. O comportamento institucional não pode seguir modismos extemporâneos ou excitações momentosas, um risco inaceitável para um organismo de Estado no sistema democrático.

Militares brasileiros construíram um valor de marca relevante, sustentado nas entregas silenciosas feitas por décadas em todo o País. Sem serem obsequiosos, ajudaram nos momentos difíceis, assistiram os necessitados nos locais mais distantes, educaram com o objetivo de gerar oportunidades aos que não tinham. O ambiente atual coloca as Forças Armadas tangenciando o debate político, justamente por sua elevada credibilidade. Com ou sem razão, este é um fato.

Neste contexto, um obstáculo precisa ser vencido na cultura militar. Soldados são treinados para responder prontamente às ameaças. A omissão é inaceitável e, às vezes, percebida até como covardia. Portanto, reagir é instinto primário dos fardados e as respostas às provocações tendem a acontecer de forma clara e direta. Mas, fora do ambiente operacional militar, reagir serve aos interesses de quem provoca, ajuda a reverberar, dá voz aos excitadores e induz divisões convenientes. Não reagir é ação de contundência profunda, sempre dissolvida no tempo futuro. Um conceito difícil de ser compreendido como virtude pelos militares, mesmo que seja circunstancial. Mas pode ser uma opção prudente e necessária para manter o valor de marca das Forças Armadas. Vai exigir sabedoria e maturidade. Os Oficiais Generais têm isso.

Mudar a trajetória atual exige ter a visão no processo histórico e projeções de longo prazo. É hora de reduzir as estridências e de se adotar o recato silencioso e disciplinado como método. Só assim, as entregas consistentes feitas em todo o País pela Marinha, o Exército e a Força Aérea poderão ser reconhecidas. O primeiro passo para garantir a condição de instituição de Estado das Forças Armadas é ter consciência disso. Que esse inusitado, desnecessário e cruel conflito na Ucrânia sirva de uma análise mais profunda, e necessária, nas questões de defesa no nosso País.

* Fernando Azevedo e Silva é General de Exército e ex-Ministro da Defesa



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