O Pinho Sol, a Segunda Divisão e o STF – IREE

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O Pinho Sol, a Segunda Divisão e o STF

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Num país que condena pessoas por portarem Pinho Sol, o pedido de soltura do Anderson Torres vem bem a propósito. Seria uma desumanidade submeter uma pessoa de bem a uma situação vexatória como a atual.

Ainda bem que é um golpista, não uma pessoa de bem.

O bom rapaz diz que está sob profunda depressão, estresse psicológico, chora o dia todo. Tadinho. Imagino que alguns milhões de presos – alguns inocentes, diga-se – devem sentir o mesmo. Os confrades do ex-ministro, que dizem que “bandido bom é bandido morto”, que “tá com pena, leva pra casa”, que cobram “direitos humanos para humanos direitos” choram lágrimas de sangue vendo ele e os demais patriotários em cana.

-E tia Honorina?

-Em cana.

-Meu Deus, por quê?

-Achou que era excursão para Aparecida, entrou num ônibus e foi parar no Congresso.

-Mas nesse caso ela é inocente!

-Claro que é! Até trouxe um pedaço original da Constituição para provar. Gente intolerante!

O fato é que as coisas estão mudando. Um acusado de – entre outras coisas – estupro foi deportado da Arábia, e outro, demitido. Isso gerou um certo desconforto. O criminoso em questão é ídolo no Atlético Mineiro, tirou meu Fluminense da Segunda Divisão quase certa, fez bons trabalhos, tem 30 e tantos anos de vida digna. E mesmo o estupro em questão teria – TERIA! – um atenuante: a vítima não aparentava os 13 anos que tinha. E atire a primeira pedra quem pediu carteira de identidade antes de tirar a roupa. Porém…

Ele preferiu mentir. Poderia ter dito que não sabia da idade da moça, e aguentar as consequências – isso na suposição que ela tivesse consentido (lembrando que meninas de 13 anos não podem consentir nada. É estupro e pronto! Mas vocês entenderam). Só que passou anos contando histórias diferentes.

O que incomoda é que ninguém – inclusive eu – se incomodou com isso durante esses mais de 30 anos. Gritei metaforicamente seu nome quando o Fluminense empatou com o Curitiba e se manteve na Série A do Campeonato Brasileiro. Junto comigo, basicamente toda a imprensa brasileira. Não dá para apagar o passado – mas como disse Chico Xavier, podemos começar de novo e fazer um novo fim.

E sim, tenho pena dele. Ser um anacronismo vivo não deve ser fácil. Se ao menos ele conseguir entender o que fez, o que é, seu fardo certamente será mais leve. Mas sua impunidade, tão esperta nos anos 80, é o fardo que tem que carregar. Ao menos até ter uma atitude digna. Acredito que as pessoas podem se recuperar, do Cuca até o goleiro Bruno.

Mas Bruno, bem ou mal, cumpriu sua pena.

Enfim, temos agora um governo de verdade e uma imprensa responsável, que sabe grifar o essencial. Lula fez sucesso por onde passou, em Portugal e Espanha. Voltamos às manchetes de forma positiva. Janja comprou uma gravata numa loja chique. Isso foi notícia. E alvo de críticas. A esposa do Presidente da República compra uma gravata com o próprio dinheiro e o mundo cai sobre sua cabeça. Alguns, mais ponderados, sugerem que ela foi “inábil”; outros, que poderia ter sido “mais prudente”.

Acho que essa gente tomou cloroquina demais. Como ela deveria ter feito? Usado uma peruca, sair sem segurança, comprar na Shein, pagar com cartão corporativo com sigilo de 100 anos, e deixar no rotativo com juros de 13,5%? Ao invés de entregar o mimo, guardar na garagem do Piquet?

O presidente é ovacionado pelo mundo, e a parte do mundo que ele governa se preocupa com uma gravata.

Por fim, os pessoais anda dizendo que Zanin é o favorito para o Supremo. Não sei se quando esta crônica sair a decisão já terá sido anunciada, mas me pergunto: Por que ele?

-Ah, ele defendeu o Lula!

-Ok, mas foi pago, não foi?

-Sim, mas Lula acabou solto.

-Não por causa dele. Perdeu em todas as instâncias.

-Ih, Ricardo, você é chato!

-Sim, sou.

Esse negócio de chamar advogado amigo para ser ministro não costuma dar certo. Vide Toffoli. Aliás, vide TODAS as indicações do PT. Poderíamos ter o melhor Supremo da história, temos o pior. Ok, as indicações do Bozo foram ainda piores, mas dele se esperaria o quê? E o que pensa Zanin? Se fosse chamado para defender Bozo, aceitaria? Por essas e outras é que advogo a indicação de nosso colega de IREE Silvio Almeida para o STF. O cara é do bem, tem uma ira santa mantida sob controle, sabe tudo e sempre esteve do lado certo da história.

Já pensaram, Xandão e Silvão? Haveria vantagens terapêuticas, também: a obstrução intestinal do Biroliro acabava na hora.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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