O petróleo no centro da crise da Venezuela – IREE

Análises e Editorial

O petróleo no centro da crise da Venezuela

9 de janeiro de 2026

A crise venezuelana e o mais recente ataque dos EUA, que resultou na prisão de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, não podem ser entendidos sem olhar para o petróleo, principal riqueza do país e eixo histórico de disputas políticas e geopolíticas na região. Com 303 bilhões de barris de petróleo, a Venezuela possui a maior reserva conhecida do mundo, e o setor responde por mais de 90% de suas exportações.

O país se tornou um dos maiores produtores de petróleo do mundo a partir do início do século XX, passando a atender à crescente demanda de países industrializados. Na década de 1920, o petróleo já havia se tornado sua principal commodity de exportação, cujos recursos impulsionaram a urbanização e o crescimento econômico do país.

 

 

No entanto, a pujança econômica que a Venezuela viveu até a década de 1980 não foi acompanhada de um processo de industrialização, nem da diversificação da base produtiva do país. Tampouco se traduziu em melhoria de vida para a população, com a concentração da renda nas mãos de uma pequena elite. 

O avanço do setor petrolífero contribuiu para o enfraquecimento de atividades tradicionais como a produção de café, cacau e a pecuária. A economia venezuelana ficou dependente do petróleo e da importação de bens de consumo, uma combinação que tornou o país altamente vulnerável às oscilações do mercado internacional.

Na primeira metade do século XX, empresas norte-americanas dominaram a exploração do petróleo na Venezuela por meio de concessões com baixo pagamento de royalties. Essa relação com o mercado foi revista e, em 1976, no primeiro governo de Carlos Andrés Pérez, a Venezuela nacionalizou sua indústria petrolífera, encerrando os contratos de concessão. Foi criada a estatal PDVSA e o setor se tornou um monopólio do Estado. 

Crise dos anos 80 e a reforma neoliberal 

A queda dos preços do petróleo no final da década de 1980 atingiu fortemente a economia da Venezuela, com queda do PIB per capita, hiperinflação e aumento do déficit público. Nesse contexto de crise, o segundo governo Pérez (1989-1993) implementou medidas neoliberais com apoio do FMI e reabriu a indústria petrolífera para o capital privado.

Os aumentos de preços e privatizações geraram protestos que ficaram conhecidos como “Caracazo”, movimento que foi reprimido com violência, deixando centenas de mortos. A eleição de Hugo Chávez em 1998 é fruto desse descontentamento social e da crise econômica. Dentre suas bandeiras, estava a promessa de que os recursos do petróleo seriam revertidos em benefícios sociais. 

A era Chávez

O governo Chávez se caracterizou pelo forte intervencionismo na economia. No setor de petróleo, reverteu o processo de privatização e aumentou a tributação das concessionárias. Empresas como ExxonMobil e ConocoPhillips rejeitaram as novas condições contratuais, deixaram o país e buscaram compensações em instâncias internacionais, processos que se arrastam até hoje. 

Enquanto os preços do Brent estavam altos, a política chavista de investimentos sociais com recursos do petróleo foi exitosa, mas os aportes na indústria de petróleo não evoluíram. De 2004 a 2009, a produção de petróleo se manteve em cerca de 3 milhões de barris de petróleo por dia. A partir de 2014, já com Maduro no poder, o mercado petrolífero passou por uma nova queda de preços, o que afetou o orçamento venezuelano e derrubou os investimentos na indústria.  

Desde 2017, os EUA têm aplicado sanções econômicas contra a Venezuela alegando defesa da segurança e da democracia. Em 2020, Maduro foi indiciado nos EUA por narcoterrorismo. Calcula-se que a Venezuela deixou de arrecadar 226 bilhões de dólares entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024. Em 2021, a produção venezuelana atingiu a mínima histórica de 664,8 mil barris por dia, voltando a subir para 960 mil barris em 2024.



Por Samantha Maia

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