O país que aprendeu a conviver com o intolerável – IREE

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O país que aprendeu a conviver com o intolerável

19 de agosto de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Em poucas semanas, três notícias voltaram a expor a mesma gramática de violência e esquecimento. Em Natal, uma mulher foi agredida com mais de sessenta socos dentro de um elevador. Tudo registrado por câmeras, tudo negado depois por um agressor que tentou justificar o crime como uma suposta crise de claustrofobia. O caso estampou manchetes, indignou por algumas horas, e logo desapareceu. Em Belo Horizonte, um gari foi assassinado após uma discussão de trânsito. O suspeito, horas depois, foi encontrado treinando em uma academia, como se matar um trabalhador fosse apenas mais um intervalo na rotina. Em Ilhéus, duas professoras e uma universitária saíram para passear com um cachorro e foram encontradas mortas, com marcas de facadas, em uma área de vegetação na orla.

Três episódios que deveriam provocar ruptura moral, mas que foram metabolizados pela sociedade como se fossem mais do mesmo. A indignação dura pouco. É combustível para um feed de rede social, não para um projeto político. E é justamente aí que a violência brasileira se fortalece, na capacidade de ser absorvida como ruído de fundo, na indiferença coletiva que transforma horror em paisagem.

Os números confirmam a dimensão estrutural. O Anuário de Segurança Pública de 2025 mostra que, em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime. Quatro mulheres assassinadas por dia, a maioria negras, mortas dentro de casa por parceiros ou ex-parceiros. Ao mesmo tempo, as mortes violentas gerais caíram. A curva é clara e a violência contra mulheres não obedece às estatísticas de queda. Ela cresce, porque o machismo cresce impune, porque o patriarcado encontra abrigo no silêncio.

A desigualdade racial é outro dado incontornável. O Atlas da Violência demonstra que pessoas negras concentram a esmagadora maioria das vítimas de homicídio no país, com risco de morte muito superior ao de não negros. Essa é a fotografia mais cruel da democracia brasileira, é o valor da vida medido pela cor da pele.

Do lado institucional, a engrenagem emperra. O Conselho Nacional de Justiça contabilizou quase um milhão e trezentos mil processos de violência doméstica pendentes no final de 2024. O tempo médio para análise de medidas protetivas é de cinco dias. Cinco dias que podem significar a diferença entre viver e morrer. O Judiciário anda mais rápido que antes, mas ainda devagar demais para quem não tem tempo a perder. E os números oficiais, sabemos, ainda escondem um país de homicídios ocultos, mal classificados como mortes por causa indeterminada. Entre 2019 e 2022, foram mais de vinte e quatro mil vidas soterradas pela estatística.

Não é verdade que não existam soluções. Países como a Espanha provaram que tribunais especializados, protocolos unificados e monitoramento de risco permanente reduzem feminicídios. Não se trata de copiar fórmulas, mas de compreender que continuidade institucional, orçamento e compromisso político são condições inegociáveis. Aqui, programas são lançados e desfeitos conforme o vento das eleições, sem nenhuma seriedade em manter política pública como política de Estado.

Evidências brasileiras também existem. Estudos mostram que frequência escolar consistente reduz taxas de homicídio. Outras pesquisas relacionam renda, presença social no território e prevenção inteligente com queda da violência letal. Mas, em vez de expandir essas experiências, o país prefere discursos punitivistas que rendem votos fáceis e não alteram a realidade.

É por isso que a saída nunca será só indignação performática no Instagram. Compartilhar um vídeo de espancamento não salva vidas. O que salva é orçamento, gestão e continuidade. É votar em quem tem coragem de enfrentar o feminicídio, de atacar a desigualdade estrutural, de reestruturar as polícias e de transformar proteção social em política séria. É cobrar de governos resultados que não sejam apenas narrativas.

Os episódios do elevador em Natal, do gari morto em Belo Horizonte e das três mulheres assassinadas em Ilhéus não são acidentes isolados. São parte de uma coreografia de violência que só continua porque nos acostumamos a ensaiá-la todos os dias. O Brasil aprendeu a conviver com o intolerável. E enquanto aceitarmos indignação breve e esquecimento rápido, continuaremos voltando ao ponto de partida.

É hora de transformar comoção em ação, repúdio em política pública, luto em estratégia de Estado. Do contrário, o país seguirá sendo aquele que se enterra vivo dentro das próprias estatísticas.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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