O oportunismo progressista e o jogo perigoso da desilusão – IREE

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O oportunismo progressista e o jogo perigoso da desilusão

19 de fevereiro de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



A política tem regras que se repetem. Quando um governo está forte, cercam-se dele aliados de todos os tipos, dos fiéis aos oportunistas. Mas quando a popularidade oscila, os primeiros a pular fora do barco não são necessariamente os adversários — são aqueles que antes estavam dentro, beneficiando-se do projeto, mas que agora enxergam mais vantagens em se distanciar. O que antes era compromisso vira cálculo. O que era lealdade se transforma em oportunismo. E nada simboliza mais esse fenômeno do que a maneira como parte da esquerda e setores progressistas passaram a tratar o governo Lula.

Criticar Lula virou o novo atestado de independência. Não precisa mais de profundidade, não exige coerência e muito menos propostas. Basta repetir que “Lula decepcionou” e o aplauso vem rápido, seja da mídia, do mercado ou mesmo da bolha progressista mais desiludida. Mas essa crítica rasa e acomodada ignora um ponto essencial: se Lula fracassar, não será um governo democrático de centro que assumirá seu lugar. Será Bolsonaro — ou um de seus herdeiros políticos.

O bolsonarismo está longe de ser uma página virada. A extrema direita aposta exatamente na corrosão interna do campo progressista para se reorganizar. Não precisa propor nada de novo. Seu objetivo é apenas minar a confiança no governo, estimular o desalento e criar a sensação de que tudo está ruindo, até que a alternativa pareça inevitável. E é nesse jogo que parte da esquerda está caindo.

A realidade, no entanto, não corresponde ao discurso catastrofista. O Brasil não está em crise profunda: a economia cresce, o desemprego caiu, políticas públicas voltaram a ter centralidade e o país reassumiu sua liderança internacional. Há problemas? Sim. Mas um governo se mede pelo conjunto da obra, não pela lupa das redes sociais ou pelo noticiário sempre predisposto a explorar os tropeços.

E quem ganha com essa desconstrução seletiva? Certamente não é o campo progressista. Muito menos aqueles que acreditam na necessidade de avanços sociais e democráticos. O espaço que Lula ocupa hoje não será preenchido por uma alternativa moderada, responsável e republicana. O tal “centro democrático” que alguns setores ainda romantizam simplesmente não existe no Brasil. O que existe é uma direita extremista, pronta para se aproveitar de qualquer vacilo para retomar o poder e radicalizar ainda mais seu projeto.

Além disso, há um elemento que poucos estão considerando: os ataques à democracia não vêm apenas da extrema direita brasileira. Existe uma disputa geopolítica clara em andamento. A América Latina sempre foi alvo de interesses externos, e os Estados Unidos — seja sob Trump ou Biden — jamais deixaram de intervir em nossa estabilidade política. O Brasil precisa estar atento a essas movimentações e se fortalecer politicamente para não se tornar refém de disputas que não lhe interessam. A defesa da democracia não pode ser seletiva nem ingênua.

Lula precisa entender que não é hora de carregar urubus ao seu lado. Oportunistas que usam seu governo como trampolim político, que se aproveitam das dificuldades para construir seus próprios projetos, nunca foram aliados de verdade. O momento exige estratégia, discernimento e, principalmente, firmeza. O que está em jogo não é apenas seu governo, mas o futuro do Brasil.

Porque quando for tarde demais, virão os arrependimentos. Não adianta gritar “Ditadura nunca mais” quando o desastre já aconteceu, se no presente se alimenta o discurso que pavimenta sua volta. Não há mais espaço para ingenuidade: a crítica pode ser necessária, mas a autossabotagem tem consequências irreversíveis. Lula pode não ser perfeito, mas é a única barreira real contra o retrocesso. E reconhecer isso é essencial antes que a história se repita — de novo.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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