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O ofício de luthier e a pluralidade de pensamento

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Durante os últimos 20 anos dediquei boa parte do meu tempo a um projeto, um fórum de violão clássico. Por sermos um gueto, havia enorme falta de informações confiáveis, então ao conhecer um espaço onde isso acontecia, me associei e me dediquei a fazê-lo prosperar, junto com outras pessoas que compartilhavam desse ponto de vista.

De cento e poucos membros, hoje somos mais de 6 mil. Isso sem nenhum viés lucrativo, os moderadores não recebem nada, os usuários nada pagam.

Um local de debate, sem censura de ideias, onde ninguém tem mais voz que ninguém.

Todavia, nos últimos anos notamos uma redução na frequência do espaço. Descobrimos que a maioria das pessoas preferia pontificar nas suas páginas do Facebook que debater e compartilhar num espaço especializado. Além do mais, o algoritmo da rede garantia que, passo a passo, quaisquer discordâncias fossem se desvanecendo. Cada um seria o rei absoluto, vomitando suas verdades incontestáveis.

Quando fui convidado para escrever neste espaço imediatamente lembrei do projeto do Fórum, e me alegrei. Um espaço plural, se não de debate, mas de ideias antagônicas convivendo, soou extremamente sedutor, ainda mais com muita gente que admiro.

Porém, fui mais fundo no site e me assustei com alguns nomes. Eu iria partilhar o espaço com gente que eu não cumprimentaria, não apertaria a mão. Gente que eu mudaria de calçada para não passar nem perto… Não, eu não faria isso. Melhor me limitar à minha página no Facebook, onde eu não precisaria… Epa!

Pois é, estava caindo na armadilha do pensamento único. Parei, pensei, e cheguei à conclusão que, já que estamos vivendo o pior momento de nossa história, precisamos fazer uma distinção: precisamos apertar mãos meio sebentas, repulsivas, para expulsar as mãos sangrentas. Precisamos unir forças, mesmo que tapando o nariz, esquecer as diferenças e lutar por MUITA coisa, pois reconstruir esse país vai dar trabalho. E nosso campo é a cultura, então, vamos trabalhar.

O ofício de luthier

Sou luthier. Muita gente não faz ideia do que seja isso, então explico. É o profissional que constrói e/ou conserta instrumentos com caixa de ressonância. No meu caso, violão & família.

No exercício da profissão acabei dando aula em uma universidade do Rio de Janeiro (Universidade Gama Filho). Por conta disso comecei a ser convidado para eventos, dar palestras, e diversos etcs. E comecei a pensar de uma forma mais ampla sobre minha profissão, e consequentemente, a de músico – que também sou. Mas isso começa numa molecagem…

Fomos convidados, eu e o diretor do Instituto de Arte e Cultura da Universidade, a participar de uma semana de Cultura numa cidade próxima. Na hora da abertura dos trabalhos, começaram a chamar personalidades da cidade – prefeito, vereador, secretário – para compor a mesa.

Fiquei MUITO surpreso quando convidaram a mim e ao diretor – aliás, amigo de muitos anos – para sentarmos à tal mesa. A surpresa foi maior quando chamaram o primeiro, da cabeceira, a dizer algumas palavras. E chamaram o segundo, o terceiro…

Olhei para o aluno que havia nos convidado, na plateia, e seu sorriso irônico denunciou que fora maldade dele, nos chamar sem avisar que haveria discurso. Mas, por dentro, ri. A prática me mantinha um discurso pronto, repetido ad nauseam, em todos os eventos. Eu parecia um daqueles meninos guias de turismo, que saem disparando seu texto decorado diante de qualquer turista.

-Na volta das Cruzadas, os invasores trouxeram um instrumento ovalado, de nome Ud. Esse instrumento…

Então fiquei esperando para ter a palavra final e ensinar quem é que mandava. O microfone veio para meu diretor, que me precederia, e ele, com a seriedade dos canalhas, disse:

-Na volta das Cruzadas, os invasores trouxeram um instrumento ovalado, de nome Ud. Esse instrumento…

E recitou TODO o meu discurso decorado! Entrei em pânico quando ele, com um sorriso de deboche, me entregou o maldito microfone. Mais de 500 pessoas na plateia aguardavam as minhas sábias palavras e pior, queria impressionar uma namorada recente que estava na plateia.

Olhei de volta para a multidão, fazendo cara de peixe, e me perguntei: Cultura. O que diabos é cultura? E isso me deu o mote para o improviso. Falei dos grandes marcos como pinturas, esculturas, livros, mas fiz o contraponto com o doce de leite que só aquela padariazinha na cidade fazia, aquele feijão que não adiantava tentar imitar, aquela sela de couro que só aquele senhor fazia… E fiz um discurso razoável.

O fato é que aquele evento mudou minha forma de encarar a música e minha profissão. Quando resolvi passar para o papel minhas experiências, me descobri um memorialista, e entendi que minha função, por vocação e desejo, é a de conservador das coisas (não me confundir com uma pessoa conservadora…).

Minha profissão é antiga, vem das Corporações de Ofício. A forma como a exerço é quase medieval, num mundo ultra tecnológico. Cada vez menos profissionais seguem essa linha. É a melhor? Para mim, sem dúvida. Se ela se perde, toda uma forma de ver a produção do som se perde.

Com isso, todo um estilo de tocar desaparece junto, incluindo o que faz do violão um instrumento único (não caberia aqui explicar o porquê, creio. Talvez em outro artigo).

Não posso obrigar os colegas mais jovens a me seguir. Sou contra qualquer ditadura, embora não desgostasse totalmente de uma em que EU fosse o plenipotenciário.

E aí caímos no mesmo ponto, de novo… O pensamento único. Então só me resta saudar esse espaço, tão antinatural, tão desconfortável e tão necessário. Vamos trabalhar.

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Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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