O novo nome da dominação é job – IREE

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O novo nome da dominação é job

25 de junho de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Chamam de “job”, de “conteúdo exclusivo”, de “empoderamento”. Dizem que agora a mulher faz o que quiser com seu corpo, que a liberdade é completa, que se ela quiser vender imagem, nudez, fantasia, tudo bem, desde que seja sua escolha. Mas, quando olhamos com atenção, percebemos que não se trata de liberdade, e sim de mais uma camada de controle. Uma dominação reembalada como conquista, feita para parecer moderna, vendável e, principalmente, desejável.

Não há nada de moralista neste texto. Nenhuma crítica às mulheres que fazem o que podem ou o que querem para sobreviver. Reconheço que, em um contexto profundamente desigual como o nosso, muitas mulheres encontram no “job” uma alternativa real. Essa crítica não se dirige às suas escolhas individuais, mas sim ao sistema que limita suas possibilidades, oferecendo a exploração como única alternativa possível. Não há também nenhuma intenção de rivalizar mulheres e homens, muito menos de atacar autores e cantores de músicas. Essa é uma crítica estrutural ao capitalismo que lucra com a estética da libertação feminina.

A cultura pop ajuda a manter esse ciclo girando. A playlist das mais tocadas no Brasil é uma coletânea de narrativas masculinas que dramatizam a mulher “do job” como símbolo da ruína moral. Em uma das mais ouvidas do país, o cantor se lamenta “Hoje em dia é difícil encontrar uma menina que não trabalha no job, todas viciadas em sentar.” O que essa frase traduz, na prática, é pura misoginia, a ideia de que mulher boa é a que recusa a liberdade sexual e que as demais são descartáveis, mas antes disso, consumíveis.

Outra música popular se chama “Novinha do OnlyFans” e reforça o mesmo discurso, a mulher só se dá bem porque tem OnlyFans, porque se vende, porque explora o próprio corpo para conseguir algo. O recado é claro, para vencer, é preciso se oferecer. E isso, depois de séculos de luta feminista, é brutal. Depois de tantas conquistas, nos reduzirem novamente a corpos que envelhecem, que perecem, que só valem enquanto “servem”.

Não estou falando contra o empoderamento dos corpos femininos. Pelo contrário. Eu quero, sim, sair com a roupa que eu quiser, dançar como eu quiser, balançar a minha raba sem ser estereotipada, sem ser vista como mercadoria, sem ter minha liberdade sequestrada pela lógica do desejo masculino. Porém, quero autonomia real que não se confunde com estar à disposição para consumo.

Esse é o roteiro clássico, a mulher que ousa desejar precisa ser redimida por um homem. O mesmo homem que a consome, que lucra com seu corpo, que canta sua liberdade como chacota, depois se coloca como salvador. Não há nada de moderno nisso.

O mais perverso é que tudo isso acontece sob o selo do empoderamento. Disfarça-se a exploração como liberdade. Vende-se a objetificação como empreendedorismo. A menina que publica fotos sensuais para tentar pagar o aluguel vira símbolo de força, mas continua vivendo sob o medo, o julgamento, a violência e a eterna chantagem social de que só tem valor se for desejável.

Para ser “do job”, a mulher precisa ser consumível. E, para isso, ela precisa primeiro consumir cílios, unhas, procedimentos, filtros, roupas moldadas em tendências voláteis. Precisa performar o corpo que mais vende, o rosto que mais engaja, o estilo que mais converte cliques em assinaturas. É assim que a roda gira e todas estamos presas nela.

Quem consome esse conteúdo são, em sua imensa maioria, homens. É o olhar deles que orienta o que é vendável. É a validação deles que confere o status de mulher desejável, interessante, lucrativa. A lógica continua a mesma, só que agora em alta definição e com um botão de assinatura mensal. O corpo feminino, historicamente usado, controlado e explorado, foi transformado em vitrine, com a bênção do discurso liberal.

Não é coincidência que tantas músicas falem da mulher “do job” como alguém que precisa ser resgatada. São os clássicos da Disney reciclados com beat de TikTok. A nova Cinderela mora na quebrada, tem OnlyFans e continua esperando por um príncipe que a aceite e a tire de lá.

Talvez o que estejamos chamando de liberdade seja apenas a versão 5.0 da mesma prisão. Uma prisão confortável, clicável, estilizada, mas ainda assim, uma prisão. E liberdade real, aquela pela qual devemos lutar, é não precisar vender para existir.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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