17 de agosto de 2026
O endividamento dos brasileiros atingiu um nível recorde em julho de 2026, com 82% das famílias endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O resultado mostra a dificuldade das famílias reduzirem o peso das dívidas sobre o orçamento, mesmo diante da melhora de indicadores como emprego e renda nos últimos anos.
Para entender o cenário atual, é preciso olhar para a trajetória do endividamento. Entre 2019 e 2022, o percentual de famílias endividadas cresceu de forma acelerada, passando de 64,1% para 78%. O período foi marcado por uma combinação de fatores que pressionaram o orçamento das famílias como baixo crescimento econômico, precarização do trabalho, pandemia, ausência de ganhos reais do salário mínimo, inflação de alimentos e expansão dos cartões de crédito facilitada pela entrada de fintechs e bancos digitais no mercado.
De 2023 a 2025, o endividamento ficou estável, próximo de 78%. As famílias, porém, já carregavam um volume elevado de dívidas quando a Selic voltou a subir em 2025. O aumento dos juros encareceu o crédito e dificultou a redução das dívidas, contribuindo para que o endividamento voltasse a crescer em 2026.
O tamanho do problema
A situação é ainda mais grave entre as famílias de menor renda: 84,9% daquelas com renda mensal de até três salários mínimos estavam endividadas em julho. Nesse grupo, 38,5% tinham dívidas em atraso, ante 29,8% na média geral, e 17,8% afirmavam não ter condições de quitá-las. Além disso, 30,6% da renda estava comprometida com dívidas, acima dos 29,5% registrados na média geral.
A pesquisa também aponta que o cartão de crédito, principal modalidade de dívida entre as famílias brasileiras, tem sido usado pelas famílias de menor renda para financiar despesas correntes, como alimentação, saúde e moradia. O uso do crédito para financiar consumo corrente revela uma pressão maior sobre o orçamento e reduz a capacidade de as famílias lidarem com novas despesas sem recorrer a mais dívida.
As apostas online também passaram a ocupar espaço nesse cenário. Segundo estimativa da CNC, as bets retiraram R$ 143 bilhões do comércio varejista entre 2023 e 2026 e contribuíram para levar cerca de 270 mil famílias à inadimplência. O fenômeno ganha importância quando observado em um contexto de orçamento já pressionado.
Impacto do Desenrola
Diante desse cenário, o governo vem buscando reduzir o peso das dívidas por meio de programas de renegociação. Em 2023, lançou o primeiro “Desenrola Brasil”, com foco na renegociação de dívidas de pessoas físicas inadimplentes. Em 2024, o programa foi ampliado para pequenos negócios. Em 2026, o governo lançou o Novo Desenrola Brasil, reunindo diferentes frentes de renegociação e crédito para famílias, empresas e estudantes, além de criar uma modalidade voltada a trabalhadores que ainda estão em dia com suas dívidas.
Em três meses, o programa renegociou R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas. No Desenrola Famílias, foram renegociados R$ 20,9 bilhões em cerca de 3,5 milhões de operações. Após as renegociações, o saldo devedor foi reduzido para R$ 3,7 bilhões, com desconto médio de 82%.
Segundo análise do Dieese, a renegociação das dívidas pode aliviar o orçamento das famílias no curto prazo, mas não é suficiente para enfrentar as causas estruturais do endividamento. Para romper esse ciclo, são necessárias mudanças que ampliem a renda, reduzam o custo de vida e melhorem as condições de acesso ao crédito. Isso passa por uma estrutura produtiva de maior valor agregado e mais inovadora; pela melhoria das condições do mercado de crédito; e pela ampliação e qualificação dos serviços públicos, especialmente nas áreas que têm impacto direto sobre o orçamento das famílias.
Por Samantha Maia
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