O movimento que levou à abolição – IREE

Análises e Editorial

O movimento que levou à abolição

13 de maio de 2026

Por muito tempo, a historiografia tradicional apresentou a abolição da escravidão no Brasil principalmente como resultado da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888. A imagem da monarquia concedendo liberdade aos escravizados ajudou a consolidar uma narrativa centrada na ação da Coroa e na ideia de uma abolição conduzida “de cima para baixo”. Embora a assinatura da lei tenha sido um marco jurídico importante, essa interpretação deixou em segundo plano o papel do movimento abolicionista e da resistência negra.

A abolição também ocorreu em meio ao enfraquecimento da monarquia e ao crescimento do movimento republicano. Ao conduzir o processo no plano institucional, a Coroa buscava preservar sua legitimidade política em um cenário de crise do Império e crescente pressão social.

Nas décadas que antecederam a Lei Áurea, a luta pelo fim da escravidão mobilizou diferentes setores da sociedade brasileira. Em várias províncias do Império, grupos e associações abolicionistas passaram a organizar campanhas públicas contra a escravidão, articulando jornalistas, advogados, estudantes, artistas, trabalhadores negros livres, libertos e pessoas escravizadas. Entidades como a Confederação Abolicionista ajudaram a conectar parte dessa mobilização e ampliar o alcance político do movimento.

 

 

 

Dessa forma, a campanha abolicionista ganhou força por meio da imprensa, de conferências públicas, atos políticos e eventos culturais realizados em teatros e espaços urbanos. O jornalista negro José do Patrocínio, um dos principais líderes abolicionistas e republicanos do país, utilizou a Gazeta da Tarde para denunciar a violência da escravidão e intensificar a pressão sobre o Império. A causa abolicionista também se difundia por meio de discursos, músicas e apresentações artísticas que buscavam ampliar o apoio popular ao fim do regime escravista.

Nos tribunais, o advogado e abolicionista negro Luiz Gama, reconhecido como Patrono da Abolição, teve papel decisivo na libertação de centenas de pessoas escravizadas ilegalmente. Ao mesmo tempo, sociedades abolicionistas arrecadavam recursos para comprar cartas de alforria, financiar ações do movimento.

A resistência de pessoas escravizadas teve papel central na pressão contra o sistema: milhares fugiam das fazendas, organizavam redes de solidariedade, formavam quilombos e ampliavam a instabilidade nas regiões escravistas. Em diversas cidades e províncias, redes abolicionistas auxiliavam fugas, escondiam perseguidos e articulavam rotas de circulação e proteção.

A intensificação da campanha abolicionista, da resistência de pessoas escravizadas e da crise do regime escravista impulsionou mudanças graduais na legislação. A aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871, e da Lei dos Sexagenários, em 1885, aprofundou divisões políticas dentro do Império e ampliou o desgaste do sistema escravista até a assinatura da Lei Áurea, em 1888.

A reação de setores escravistas, principalmente donos de terras, ao movimento abolicionista frequentemente apelava ao medo da desordem social, da crise econômica e da perda de autoridade no Império. O receio envolvia a desorganização da produção agrícola, o enfraquecimento da autoridade senhorial e a perda de uma estrutura de poder sustentada pela escravidão.

Todos esses elementos indicam que a abolição da escravidão no Brasil não resultou de um processo automático nem de uma decisão isolada do Estado imperial. Ela foi resultado de mobilização política, resistência da população negra e articulação de diferentes atores sociais em escala nacional. A história do movimento abolicionista mostra como mudanças estruturais não acontecem sem que haja junto organização coletiva e pressão popular.



Por IREE

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