O mercado transformou o crime em desejo – IREE

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O mercado transformou o crime em desejo

5 de novembro de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Eu não sou conservadora e não tenho interesse algum em pregar virtude. O que vou dizer nasce de um reconhecimento incômodo. Eu, mulher privilegiada, com futuro, trabalho e educação, já assisti série sobre crime e senti fascínio. Já desejei, ainda que secretamente, a adrenalina do risco e a sensação de poder rápido. Se até eu, com horizonte garantido, posso ser seduzida por essa fantasia, é cruel exigir que o menino que não tem nada seja imune a ela.

O fetiche do crime não é acidente cultural. É consequência de um liberalismo que converteu absolutamente tudo em produto. Um liberalismo que transforma indignação em clique, corpo em engajamento, violência em audiência. Um liberalismo que cria desejo e não ética. A direita que grita por valores é a mesma que consome o crime como espetáculo, desde que ele esteja embalado em roteiro cinematográfico.

Quando tudo pode virar conteúdo, o ilícito também vira entretenimento. É série de contraventor na plataforma. É criminoso carismático como personagem de horário nobre. É fantasia carnavalesca de poder que nunca foi distribuído. É música que erotiza o tráfico e transforma arma em fetiche.

E o Brasil hoje não está apenas romantizando o crime. Está ensinando destino. Está dizendo ao menino periférico que reconhecimento para ele só existe como poder ilegal. Está dizendo à menina periférica que o lugar legítimo para ser vista é o corpo monetizado, o conteúdo sexual para consumo de homens que se dizem moralistas. Esta sociedade ensinou à juventude pobre que o futuro possível é essa dupla tragédia. Ele traficante. Ela objeto.

E há uma ferida interna que me recuso a romantizar. Parte da própria esquerda caiu na cilada liberal de acreditar que toda exposição de corpo é liberdade e que toda transgressão é emancipação. Não é. Há uma diferença brutal entre emancipação e mercantilização. Transformar a vulnerabilidade em produto e chamar isso de autonomia é reproduzir o capitalismo com figurino progressista. Não é esquerda quando legitima o corpo pobre como capital privado. É liberalismo de mercado fingindo libertação.

E também não se trata de demonizar funk ou cultura de favela. Pelo contrário. A cultura periférica é talvez a mais viva e inventiva deste país. O que está em jogo é que o mercado capturou essa potência para vender fantasia de ascensão. O artista que performa o crime e ascende vira propaganda falsa de mobilidade. Vira vitrine que retroalimenta o ciclo. A cultura vira combustível. A juventude vira insumo. E quem lucra é sempre o mesmo capital.

E há ainda uma perversidade adicional. O Brasil exporta este fetiche como mercadoria global. Este país vende a sua violência como produto consumível. A miséria vira exotismo. A dor vira glamour. O mundo compra a nossa tragédia como entretenimento.

No final, o corpo que paga a conta nunca é o nosso. É o corpo do menino pobre, negro e periférico, convertido em cadáver estatístico. Ele é protagonista do imaginário, mas nunca do país. E quando ele morre, a fantasia continua. O mercado encontra outro menino carismático para filmar, outra narrativa para glamourizar, outro roteiro para vender.

Segurança pública não se constrói apenas com polícia. Constrói-se com Estado simbólico, com disputa de narrativa, com dignidade distribuída. Não adianta dizer ao jovem pobre que o crime não compensa quando todo o espetáculo nacional afirma o oposto. É impossível exigir que ele rejeite uma fantasia que o resto do país consome com tesão.

A mudança exige desmontar o glamour que damos ao ilícito. Não é moralismo. É disputa de desejo. Enquanto a fantasia valer mais do que a política pública, nenhuma solução sobreviverá. Porque antes do crime ser ação, ele é imaginação.

E a imaginação brasileira está doente.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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