4 de outubro de 2024
O problema da periodicidade dessa coluna – admirada por milhões – é que a gente acumula um monte de assunto e fica na beirinha de outros. Por exemplo, no dia 6 de outubro tem eleição no Brasil e, logo depois, nos EUA. E eu tenho saudade do tempo em que eleição era um negócio sobre política. Lembra? A gente votava no que nos parecia melhor, que tinha alguma proposta… Agora a gente tem uma monstruosidade de um lado e um ser humano do outro; seja quem for a pessoa, é nela que temos que votar.
-É, a gente tem que votar no menos pior…
Não, não diga isso. Não pelo conceito, mas pelo português. “Menos pior” está no mesmo degrau de “mais melhor”. Não façam isso comigo, eu imploro.
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E isso não é só aqui. No nobre país irmão, temos o perigo laranja. E já falei por aqui: não tivemos golpe pois tio Biden disse:
-Beero-Leero, no no no!
Somado à pusilanimidade do Mito, mantivemos nossa democracia. Que, novamente, está ameaçada.
E ameaçada pela burrice do povo.
-Olha lá, o cara é coach, mente, foi condenado, fingiu que estava morrendo pela cadeirada, no dia seguinte disse que não foi nem um arranhão, ofende os outros sem provas, debocha na cara da gente… Vou votar nele!
Se eu me perguntava o que diabos levava as pessoas a votarem em Bolsonaro, agora honestamente não me espanto mais. O que virá depois?
-Alô, idiotas! Sou um energúmeno! Babo na gravata, roubo velhinhas (ok, essa não é nova), gosto quando rola um clima com meninas novinhas (ok, idem), faço sacrifícios humanos, atropelo filhotinhos de cachorro e sou cristão e conservador.
-Olha, um cara honesto! Vou votar nele!
Eleito no primeiro turno.
Falando em eleito, queria um esclarecimento dos marqueteiros políticos: em toda esquina vemos pessoas empunhando entusiasticamente bandeiras dos candidatos. Qual o objetivo?
-Hummm, tem uma pessoa mal remunerada, tendo sua fragilidade social explorada por um candidato, sacudindo uma bandeira… Vou votar nele!
Isso sem contar que a tal bandeira sempre está do avesso, e é sacudida vigorosamente. É quase impossível ler o nome do indigitado. Qual o propósito? É o mesmo princípio daqueles bonecos de posto: quem, em sã consciência, usaria como critério para abastecer o carro, a presença ou não daquele bicho?
-Oba, colocaram um boneco se sacudindo no posto onde sempre abasteço! Vou voltar nele! (desculpem)
Outro problema de uma coluna de humor é a existência de assuntos impossíveis de serem leves. Silvio Almeida, por exemplo, que sonhei em ver Ministro do Supremo. Custo a acreditar. Foi das coisas mais sofridas que presenciei na vida política. Pior até que a prisão de Lula; este era inocente, as coisas se ajustariam, como afinal aconteceu. Só cabe solidariedade às vítimas.
Mas temos assuntos mais leves: aquecimento global.
CHOVEU no deserto do Saara, e muito! No Brasil, fazendeiros (os de verdade) se preocupam, pois as estações do ano estão confusas. Durante anos plantaram, sei lá, mamão em fevereiro (não faço ideia de quando se planta mamão) e colhiam em maio (igualmente nada sei da colheita do mamão). Agora mudou tudo, tem que plantar em agosto e colher em julho, sei lá. Está tudo enlouquecido. O que achavam que era exagero do André Trigueiro agora é a mais pura realidade. Não creio que ele esteja feliz, falando “eu não disse? Eu não disse?” aos quatro cantos. E o pior é ver todos os negacionistas rindo, ainda fingindo que não acreditam. Para eles, aquecimento global não é nada, desde que tenham um belo aparelho de ar-condicionado à disposição.
Por essas e outras é que titio diz: juízo quando votarem. Mesmo vereadores têm que ter compromisso com o clima do município. E os prefeitos, pelo amor de Deus, os prefeitos… Aqui eu prego para convertidos: quem me lê não vota nesses pustemas, mas façam campanha, ainda dá tempo. Preguem voto útil, ainda no primeiro turno. Aqui no Rio tivemos Crivella e Witzel, não podemos dar mais margem para o azar. Em São Paulo o risco é enorme. Em Minas, idem…
Encontrei com Pelé na fila do supermercado. Ele me cumprimentou e ironizou:
-Quando eu disse que brasileiro não sabe votar me crucificaram.
Tentei ponderar que na época o comentário tinha sido inoportuno, mas o Rei não está acostumado a ser contrariado, calei minha boca.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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