23 de julho de 2024
Por Carolina Casarin*
Imagina se você tivesse a oportunidade de rever um parente morto há muitos anos, um mais velho. Imagina essa realidade abençoada e fantástica em que você pudesse se reencontrar com um ente querido. Sua bisavó, seu bisavô, sua avó, seu avô, sua mãe, seu pai… ou até algum familiar que você não chegou a conhecer pessoalmente, mas, mesmo assim, parece nutrir com ele alguma intimidade de tanto ouvir contarem suas histórias, seus atos engraçados ou corajosos, seu jeito de se vestir. Agora, imagina que esse reencontro fosse interrompido por alguém que tivesse encaminhado seu parente para outro lugar. Um laboratório, para que seu parente – vindo do além, do passado – fosse estudado como um objeto científico. Imagina que a sua espera, e tudo aquilo que você planejou dizer para o seu ente querido, ou fazer, olhá-lo longamente, abraçá-lo, perguntar como é do outro lado, imagina que você fosse proibido de fazer qualquer coisa porque, afinal, o seu parente é um objeto científico. Pois deve ter sido isso que sentiu o povo tupinambá ao ser impedido de recepcionar o manto sagrado que recentemente voltou ao Brasil.
O manto tupinambá, no esplendor da sua beleza, da sua técnica, não é um objeto, não é um artefato, ele é um ente. O manto sagrado tupinambá é um ancestral, uma divindade, ele é parente do povo tupinambá. O manto fala, tem desejos e vontades. Há muito os mantos tupinambás desejam voltar para casa. Glicéria Tupinambá, nascida na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, pertence a uma linhagem de pajés e é uma das pessoas que tem o poder de se comunicar com os mantos. Como ela escreveu em carta enviada ao Papa Francisco, datada de 3 de novembro de 2023, ao solicitar uma audiência com Vossa Santidade, os mantos tupinambás, e outros itens sagrados, como bordunas, flautas, machadinhas, foram confiscados por padres jesuítas e enviados para Roma. “Segundo um dos escritos que consultei, os jesuítas levaram de uma só vez dez mantos tupinambá”, ela diz. “Também sei que encontram-se no Vaticano um caderno de sonhos de Catarina Paraguassu e uma pedra importante para nossa comunicação com as divindades. Tudo ficou em posse dos padres”.
Devemos reverenciar o povo tupinambá e, todos nós, nos submeter à vontade do manto. E quem escuta e conhece a vontade do manto é o povo tupinambá. Estive com um manto tupinambá na Bienal de Veneza, este ano. Me senti profundamente emocionada, uma emoção difícil de descrever. Aquilo que a gente sente quando sente o sagrado. Além da força da presença do manto que está ali, a ausência dos outros mantos, representados por redes de tarrafas, também é marcante. Cartas e e-mails enviados por Glicéria Tupinambá – em nome de sua comunidade – a instituições europeias e as respostas, frequentemente cínicas, compõem, então, a instalação Okará Assojaba, uma assembleia tupinambá.
Feito de penas vermelhas da ave guará, o manto sagrado tupinambá que voltou há poucos dias para o Brasil estava desde o final do século XVII na Dinamarca. Foi devolvido ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, cuja direção não avisou aos indígenas tupinambá, como estava previamente acordado, a chegada de seu ancestral. Há pelo menos uma dezena de mantos tupinambás em museus europeus. Somente no Museu Nacional da Dinamarca, onde estava o manto recém-devolvido, estão mais quatro.
A lógica do acúmulo e do colecionismo é europeia, portanto, do colonizador. Esse manto sagrado, e os outros entes sagrados que retornarem ao Brasil, devem ser devolvidos aos indígenas para que voltem a seus territórios de origem. Não há sentido na perpetuação do sistema museológico eurocêntrico quando o que está em jogo não são objetos, artefatos, ou a reconstrução de um acervo. O que está em jogo é a possibilidade de futuro que desejamos. Nas palavras, novamente, de Glicéria Tupinambá: “Sei que as mudanças são lentas e poucas, mas o efeito rebote delas é maior no futuro. Estou lutando por futuros possíveis. Espero que Vossa Santidade também”.
*Carolina Casarin é doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com doutorado sanduíche no Institut d’Histoire du Temps Présent, em Paris. Escritora, figurinista, professora de História da Indumentária na Universidad Nacional de Rosario e autora de “O guarda-roupa modernista: o casal Tarsila e Oswald e a moda” (Companhia das Letras, 2022).
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