1 de outubro de 2026
Bem, estamos nas vésperas da eleição mais importante de nossas vidas. De um lado, temos um apoiador de milicianos, ex-dono de uma franquia de chocolates que ganhava mais dinheiro na época do 13º que na Páscoa, dono de uma mansão que ele, modestamente, fala custar metade do que aparentemente vale – e metade já é muito! Nenhum projeto relevante na carreira política, mas amigo do Vorcaro, recebendo milhões, o visitando em casa (segundo ele, para romper o relacionamento, que ele não é homem de romper por mensagem; segundo o presidente de seu partido, para pedir mais dinheiro).
Do outro, nem precisava ser o Lula, o maior brasileiro da história. Podia ser qualquer um, o Homem do Saco, Seu Zé da padaria, o cachorro caramelo, um pedaço de cocô duro. Qualquer coisa seria melhor que ele. E mais preparado. Mas as pesquisas não mostram isso.
Vox populi, vox Dei, dizia o ditado (para quem não fala latim fluentemente como eu, voz do povo, voz de Deus). Perdeu a validade. Agora seria vox Meta, vox diabolus. As redes sociais substituíram o cérebro das pessoas, o whatsapp é a forma como o demônio se comunica e dá suas ordens.
-O demônio?
-Sim, o diabo não é o pai da mentira?
-Ah, sim, faz sentido, obrigada.
-Disponha.
Então temos o maior presidente da história disputando com um sub-humano.
-Mas e o déficit? Lula vai deixar um déficit!
-De novo, senhora?
-Sim! Lula gasta muito!
-De fato, matar a fome de milhões não é barato. A senhora acha que devia matar de fome metade da população para haver superávit?
-…
-Senhora… Senhora, aonde a senhora foi?
A questão – ou a questã – é que de fato tem gente que acha que sim, tem que economizar. Não cortando gastos do Congresso ou do Judiciário, não acabando com emendas fantasma, mas tirando dos pobres. E essa gente dorme de noite. Já dizia Maria da Conceição Tavares: ninguém come PIB!
Vocês, acostumados com a explosão de gargalhadas que meus textos provocam, podem estar me achando um tantinho sério hoje. Sou famoso por ser intimorato, sempre enfrentando de peito aberto e coração a gargalhar as intempéries da nossa política. No meu dicionário não tem a palavra medo – estão faltando várias páginas, não tive dinheiro para comprar outro.
Pois estou apavorado com os rumos de nossa pátria. Mesmo com a vitória de Lula, temos que ter um Congresso minimamente minimamente! E cansa um pouco ver pessoas inteligentes querendo votar para senador no candidato Caça Rato da Candinha, que tem traço nas pesquisas, porque ele é autenticamente de esquerda, ou algo assim. Coleguinhas, tenham juízo. É voto útil, eventualmente a gente tampa o nariz e vota no menos ruim (e repito aqui minha campanha pela demonização do termo “menos pior”. Quem fala “menos pior” fala “mais melhor”), a hora não é de ideologias menores; é a hora de combater a barbárie. Votem em qualquer um que derrote o fascismo.
Mas o tema do momento é Nossa Senhora. A pobre entrou no meio de uma polêmica como Pilatos no Credo. Agora com essa citação antiga e bíblica deixei metade – ou mais – de meus leitores no vácuo. Procurem a expressão no Google, melhor.
Mas, voltando, um pastor disse que Nossa Senhora é o demônio vestido de azul. Um ex-deputado bolsonarista fez um projeto, há alguns anos, destituindo a boa Aparecida de seu cargo de padroeira do Brasil, e o tema voltou. Uma confusão enorme, o Evangelistão se alvoroçou, os católicos – e os que têm QI positivo – também. Resultado: Flávio empunhou uma bonequinha parecida com Nossa Senhora Aparecida num comício.
O carro de som pegou fogo.
Não sei se Flavio algum dia disse que iria demitir Nossa Senhora, mas disse, com certeza, que iria entregar o país ao Senhor Jesus.
Acho que é quase isso, se eleito vai deixar o país ao Deus dará…
Enquanto panfletava no meu bairro, encontrei João Saldanha distribuindo santinhos do PC – o que é uma contradição em termos, mas tudo bem. O saudei, lembrei de seus momentos como um dos maiores comentaristas esportivos do país, e não pude deixar de perguntar o que ele achava do fim das bets no país. Juntou gente:
-Meus amigos, a coisa é feia. Os clubes que se virem, no meu tempo nem patrocínio havia e fomos tricampeões do mundo. A Fórmula 1 sofreu quando tiraram os cigarros, e está firme e forte hoje.
-Mas seu João, e quem vai patrocinar agora?
Alguém no povo comentou que uma empresa de garotas de programa estava pensando em ocupar o espaço deixado.
-Tão vendo? Esses caras não perdem nunca. Alguns influenciadores perderam o patrocínio, mas já já vão conseguir mais grana, dessa vez com suas mães…
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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