O Inútil, o Enforcamento e o Padre Engordador – IREE

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O Inútil, o Enforcamento e o Padre Engordador

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



-Para que serve um mosquito?

-Apesar de encher o saco e transmitir doenças, tem um papel importante na cadeia alimentar e, em certos casos, é polinizador.

-Tá certo. E urtiga?

-Apesar de provocar extrema irritação, seu chá, tomado sob aconselhamento médico, pode ser útil em diversos casos.

-Hummm, vamos dificultar: e bosta?

-Essa é fácil: serve como adubo, por exemplo.

-Ok. E papparazzi? E jornalista de fofoca?

-Ahn… Hummm… Êhhh… Pera… Quer dizer…

Pois é. Não tive filhos, não transferi para ninguém o legado de minha miséria, mas imagino o desgosto de um pai ou mãe vendo o rebento se dedicar a divulgar quem come – ou é comido – por quem no meio artístico. Essa semana uma jovem tirou a própria vida porque um desocupado resolveu inventar algo sobre sua privacidade, e um site inútil resolveu divulgar. Mesmo que fosse verdade, qual, em nome de Deus, é o interesse de quem quer que seja nesse assunto? O que muda na minha vida saber quem vai para a cama com quem? Enquanto escrevo, parece que vazaram uma conversa do Gianecchini; outro dia, falaram do Neymar com outro cara… O site que divulgou a história da moça tem 21 milhões de seguidores! Essa gente não tem NENHUMA perspectiva que não seja a vida alheia?

Agora mesmo tivemos o Cruzeiro do Neymar. Não entendi bem o conceito, o sujeito paga para assistir ao Neymar? Ele fica fazendo embaixadinha com bolinha de papel, é isso? Paga-se mais caro por ser o cruzeiro dele, ou é o preço regular? E o tal cruzeiro já gerou manchetes, uma moça, adepta da nobre arte do funk, disse que todo mundo pegou todo mundo! Entregou casados e casadas, noivos e namorados, parece que não escapou ninguém. O país roendo as unhas, tentando adivinhar os personagens que pulavam de cama em cama – ou beliche em beliche, era uma coisa náutica – e enquanto isso o nobre Estadão pedia clemência aos golpistas de 8 de janeiro!

Sim, mudei de assunto de modo sagaz. Vi alguns questionamentos sobre o porquê de tamanha sandice, mas acho que matei a charada: mercado. O nobre diário quer a fatia da população antenada com o bolsonarismo, só pode ser isso.  Mas imprensa escrita cortejando o gado? Well, acho difícil dar certo. Essa gente tende ao analfabetismo funcional, qualquer palavra com mais de duas sílabas é foco de estresse.

Os cidadãos de bem têm dificuldades com polissílabos.

Mas gente, alguns queriam enforcar o Xandão! ENFORCAR! Os caras queriam acabar com nossa democracia, e um jornal, por interesse de mercado, defende soltar esses criminosos. Qual o limite? O capitalismo, o Deus Mercado, admite tudo?

Mas é aí que a gente junta os dois assuntos: um alimenta o outro. O site que popularizou as mensagens falsas da moça era considerado “de esquerda”. E o gado cai de pau em cima. Acabam dando razão ao bom senso, é preciso regular esses espaços. Eu defendo a liberdade de expressão, e vou fazer uma digressãozinha que vai reduzir e muito minha parca popularidade: o humorista Leo Lins foi censurado, cortado, quase preso, por conta de suas piadas. As acho abomináveis, não consigo rir da média daquilo. MAS… Mau gosto não é motivo de censura. Os mais antigos lembram que a bela música de Rita Lee, “Cor de Rosa Choque”, cuja primeira parte foi tema do programa da Globo TV Mulher, teve sua segunda parte censurada pela nefanda dona Solange, da Censura Federal. O verso dizia:

“Mulher é bicho esquisito

Todo mês sangra”

A boa e pudica dona Solange achou de mau gosto, e censurou. Ora, se eu não aceito esse argumento da direita, não devo aceitar da esquerda. Danilo Gentili foi colocado numa lista negra pelo PT. Isso está errado em todos os níveis. Não se pode lutar apenas pela liberdade do que a gente gosta. Às vezes é preciso tampar o nariz e fazer o certo. Sobral Pinto era de direita, e lutou pela liberdade de expressão sobre assuntos dos quais discordava profundamente.

A esquerda defendeu, por exemplo, o direito de se fazer uma peça onde os atores se colocam em círculo e um enfia o dedo no fiofó do outro; ou mesmo onde um homem pelado estava ao alcance de menores de idade (acompanhados dos pais). E está tudo certo, vai quem quer, quem acha isso legal, sem problema. TEM que ser assim! Mas não dá para defender apenas nosso lado do mau gosto…

Voltando, isso é diferente de se falar qualquer coisa, de se noticiar qualquer coisa, de se imputar qualquer coisa, sobre pessoas, gente real, de carne e osso, famosa ou não. Tudo tem regras, só a internet que não? Mencionando Dino, os Termos de Uso de um site são mais importantes que a Constituição?

Censura, jamais. Responsabilidade, sempre.

Os antigos hão de lembrar – e hão de lembrar também quando se usava expressões como ”hão” – do Febeapá, de Stanislaw Ponte Preta. O “Festival de Besteiras que Assola o País” coletava absurdos, tão frequentes em nossas plagas. São Paulo se depara com a seguinte informação: desde que seu governador acabou com o uso de câmeras no uniforme da PM, a letalidade da nobre força policial aumentou em 34%. O político não acha isso preocupante, o que preocupa é assalto, sequestro, etc. Bacana. Aí a Câmara do nobre e progressista estado resolve trabalhar, e propõe uma CPI: basicamente, contra o padre Julio Lancelotti. O padre, de fato, atrapalha tudo: alimenta, nutre os pobres, eles ficam mais espertos, raciocinam melhor. Resultado: mais trabalho para a PM na hora de matar eles…



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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