O homem que já nasceu superlativo – IREE

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O homem que já nasceu superlativo

1 de setembro de 2025

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



O maior elogio de minha vida literária foi quando recebi, por e-mail, um texto meu atribuído ao Verissimo. Evidentemente quem fez a troca era uma pessoa sem muito discernimento, mas seja quem for o deslustrado desconhecido, meus agradecimentos mais profundos.

Sempre fui desenhista, com sonhos de cartunista, até que um dia li Carlos Eduardo Novaes (de quem tenho a enorme honra de ser amigo virtual). Naquele momento descobri que se podia fazer cartuns escritos. Pré-adolescente problemático, sempre enfiado na própria cabeça, descobri no humor a forma de reagir àquele mundo que não me acolhia – ou, vá lá, ao qual eu não dava chance. E comecei a procurar, nos livros, quem dissesse o que eu queria dizer. Logo também descobri Fernando Sabino, que imediatamente me avisou – nos seus textos, bem entendido – que era muito trabalhoso escrever fácil. Aí surgiu Luis Fernando Verissimo.

 

 

Uma revelação. Diferentemente de meus outros ídolos, que tinham uma vida social intensa (Novaes chegou a fazer comédia Stand Up!), Luis Fernando tinha essa vida interna semelhante à minha. Adivinhava o que ia pelo mundo, observando de sua casa natal. Sim, cometia o desatino de tocar sax em público, demonstrando cabalmente que a propagada timidez na verdade era apenas preguiça de falar. Tudo que tinha a dizer, escrevia. O que faltava dizer, dizia tocando. E, como li praticamente tudo que ele escreveu, posso dizer que não faltou nada. Só fico curioso com os apostos que ele escrevia no sax. Nunca o ouvi.

Como não sou o LFV, caio no lugar comum: ficamos mais pobres. E nem é o caso de me chamar de saudosista, mas quando era aquele adolescente chato, sem pensar muito (uma frase ambígua: não pensava muito quando jovem, não pensei muito na lista), eu lia no jornal:

Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, João Saldanha, Nelson Rodrigues, Ziraldo, Jaguar, os citados Novaes (último supérstite – dicionário, rápido!) e Sabino, Chico Caruso… E não, não surgirão iguais ou similares, pelo simples motivo que não pode haver outro Ayrton Senna sem um carro que o leve. Acabaram os jornais.

Acordar e calmamente absorver o que chegava era um privilégio, a gente não era massacrado por informações a cada segundo. A gente escolhia o rumo do que lia. No Rio, quem queria uma visão mais à direita, tinha o O Globo; quem ia para a esquerda, o Jornal do Brasil. Quem gostava de rir da desgraça, tinha o O Pasquim; quem queria sangue, tinha o O Dia. E aos domingos, aquela festa: uma torre de papel, jornais enormes, quem assinava um jornal comprava outros, eram os dedos ficando pretos com a tinta fresca, ainda quentinha, até a hora de lavá-los para o almoço.

Quando um pouco mais velho, cheguei em casa de madrugada, o jornaleiro estava se preparando para ir ao O Globo pegar os jornais. Me chamou para ir junto. O jornaleiro mesmo era o Benito, chamado assim pois na sua Itália natal quem tinha esse nome ganhava um dinheirinho do Estado. Luigi, seu irmão, ia à sede do jornal buscar os calhamaços. Sabe aqueles filmes de bolsa de valores, em que todo mundo grita e parece que ninguém se entende? Igualzinho. Numa plataforma um sujeito ia interpretando os berros e arremessava pilhas de jornais em feixes para os ensandecidos italianos. Eu, magro de dar dó, recebi uma jornalada na cabeça que me bambeou e quase me apagou. Como medalha pelos ferimentos recebidos, ganhei uma edição gratuita, para levar para meu pai, orgulhoso do filho vagabundo chegando em casa àquelas horas.

Tudo isso para dizer que antigamente era melhor. Toda geração acha isso, e é verdade. E penso nisso vendo se apagar uma das maiores estrelas que vi brilhar. Citando – errado – de memória o também falecido Fernando Pessoa, tenho saudade do dia dos meus anos, quando eu era feliz e ninguém estava morto. E a alegria era certa como uma religião qualquer.

Tchau, Verissimo. Obrigado.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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