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O futebol feminino jogado fora dos gramados

25 de agosto de 2026

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Em 2027, o Brasil sediará pela primeira vez uma Copa do Mundo de futebol feminino. É um marco histórico para o “país do futebol” que, paradoxalmente, foi um dos que mais tempo levou para reconhecer o direito das mulheres de jogar. Ao definir o calendário para o ciclo 2026-2029, a Confederação Brasileira de Futebol incluiu uma pausa no Campeonato Brasileiro masculino durante o período do Mundial, mesma lógica aplicada às Copas do Mundo masculinas. Mas a decisão provocou uma reação antiga: até que ponto o futebol praticado por mulheres ainda importa?

Em abril de 1941, o então presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei 3.199, que proibia mulheres de praticar esportes considerados incompatíveis com sua natureza. O futebol entrou sob o argumento de que o esforço físico poderia comprometer as suas funções reprodutivas. Sua consequência foi conter a autonomia e a liberdade de expressão das mulheres.

Durante esse tempo, mulheres jogavam escondidas, à noite, disfarçadas, entre amigas, resistindo a uma lei que tentava tirá-las de campo. Somente em 1979 a proibição foi revogada, e o futebol feminino regulamentado em 1983. Não por acaso a primeira Copa do Mundo Feminina oficial da Fifa só aconteceu em 1991, seis décadas depois da primeira edição masculina, com partidas reduzidas a oitenta minutos porque se acreditava, sem qualquer base científica, que mulheres não suportariam noventa.

No Flamengo, o presidente Luiz Eduardo Baptista afirmou que o Ninho do Urubu não seria disponibilizado como centro de treinamento para o Mundial Feminino de 2027. Diversos jornalistas esportivos homens afirmam que a parada do campeonato brasileiro para a copa feminina seria um erro, justificando que o futebol feminino não atrai público nem nos estádios nem na televisão. A pausa do calendário para o Mundial masculino nunca foi tratada como um favor a ser negociado, mas para o Mundial feminino a mesma regra passa a ser um prejuízo.

A trajetória do futebol feminino no Brasil avança por meio de conquistas concretas e, mais uma vez, as mulheres terão a oportunidade de mostrar ao mundo um futebol bem jogado, como há décadas não se vê em terras brasileiras. Sediar, em 2027, a primeira Copa do Mundo Feminina no Brasil é, portanto, motivo de orgulho: o reconhecimento de uma história de resistência que se transformou em protagonismo dentro e (dando exemplo) fora de campo.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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