O futebol brasileiro sob o domínio das bets – IREE

Análises e Editorial

O futebol brasileiro sob o domínio das bets

21 de setembro de 2026

O governo estuda uma Medida Provisória para endurecer as regras do mercado de bets, com foco nos jogos on-line e na publicidade das apostas esportivas. Segundo informações divulgadas nos últimos dias, a proposta em discussão não eliminaria as apostas esportivas, mas poderia impor novas restrições à publicidade. O conteúdo final da medida ainda não havia sido publicado em 21 de setembro.

A discussão expôs o tamanho da dependência construída entre as casas de apostas e o futebol brasileiro. Clubes e federações reagiram com a divulgação de um manifesto, em 17 de setembro, no qual afirmaram que o fim do mercado regulado poderia comprometer as receitas dos clubes. As entidades chegaram a dizer que, se as apostas reguladas acabassem, “o futebol é quem acaba”.

A reação ajuda a dimensionar uma transformação que ocorreu em poucos anos. As apostas de quota fixa foram autorizadas pela Lei nº 13.756, de dezembro de 2018. Em janeiro de 2019, o Fortaleza tornou-se o primeiro clube brasileiro a ter uma casa de apostas como patrocinadora. Desde então, o setor passou de uma presença pontual a uma das principais fontes de receita comercial do futebol.

Em setembro de 2026, 28 dos 40 clubes das Séries A e B mantêm algum vínculo comercial com casas de apostas, segundo levantamento atualizado sobre os contratos em vigor. São 15 dos 20 clubes da Série A e 13 dos 20 da Série B, o equivalente a 70% das equipes das duas principais divisões. O número inclui contratos em diferentes propriedades comerciais dos clubes, e não apenas o patrocínio principal da camisa.

Na Série A, a concentração se tornou especialmente evidente em 2025. Naquele ano, todos os 20 clubes tinham algum patrocínio de bets e, em 18 deles, uma casa de apostas ocupava o principal espaço comercial da camisa. O valor total dos patrocínios master dos clubes passou de R$ 496 milhões, em 2023, para R$ 1,117 bilhão, em 2025, uma alta de 125%, segundo levantamento da Jambo Sport Business. O maior contrato de patrocínio do futebol brasileiro foi assinado em 2025 pelo Flamengo com a Betano. São R$ 268 milhões por ano, válido até dezembro de 2028. O inflacionamento dos contratos com a entrada das bets espantou empresas de setores que tradicionalmente investiam nos clubes, como bancos, montadoras e marcas de consumo.

A força financeira das bets não se limita aos clubes. O setor também ampliou sua presença em outras propriedades comerciais do futebol. A Betano, por exemplo, adquiriu os naming rights das duas principais competições nacionais, o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil.

Nas transmissões, a Copa do Mundo de 2026 foi um marcos para as bets. As empresas de apostas foram a segunda maior categoria de anunciantes, atrás apenas de alimentos e bebidas, e estiveram presentes nas três transmissões oficiais do torneio no Brasil, pela Rede Globo, CazéTV e SBT. Na CazéTV, narradores e comentaristas apresentaram odds e recomendaram apostas em tempo real. A prática levou a Senacon a abrir uma investigação, e o Conar determinou a suspensão de anúncios veiculados pelo canal.

Os dados mostram que o crescimento acelerado das bets criou uma dependência comercial relevante no futebol brasileiro, tornando qualquer alteração nas regras sensível para os clubes. Essa dependência, no entanto, não elimina a necessidade de discutir os custos desse mercado para a sociedade. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões líquidos para as plataformas, sem falar dos impactos sociais e psicológicos. Não por acaso, pesquisa realizada em agosto mostrava que 56% dos brasileiros apoiavam a proibição das bets. O cenário aponta para uma mudança à qual os clubes terão de se adaptar, sem esperar que a regulação das bets seja condicionada à preservação de suas receitas.



Por IREE

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