O fim da África (e nosso inescapável destino) – IREE

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O fim da África (e nosso inescapável destino)

Gustavo Buttes

Gustavo Buttes
Diplomata



No dia 26 de maio de 2023, concluo oficialmente minha missão de quase quatro anos e meio na África, em Moçambique, para ser mais preciso, pois no fim das contas a África é só um nome dado pelos romanos, primos distantes do homem ocidental moderno, a um dos cinco ou sete continentes – fora os submersos – descolados tectonicamente pela pangeia universal em um passado remoto, designação geográfica demasiada sólida e natural, na minha opinião, para que sobre ela se queira elaborar políticas, estratégias, discursos, debates, etc. Aliás, acho igualmente fora de lugar e anacrônico o termo “missão”, de que me vali, para designar o período de trabalho nada prosélito ou religioso que fiz aqui fora. Muito pelo contrário, a natureza de minhas funções no exterior, tanto quanto no Brasil, via de regra, é bastante burocrática e envolve estruturas de comando rígidas e hierarquizadas, comunicações oficiais sobre temas os mais variados, interlocução com colegas de outras nacionalidades e atores locais relevantes, muito papel timbrado, carimbos e rubricas, claro, e entraves técnicos de toda sorte para serem equacionados durante o horário de expediente, enfim, elementos comumente encontrados em repartições públicas de maneira geral.

Como se sabe, em paralelo, nos últimos anos, escrevi para o IREE sobre algumas experiências pessoais em terras africanas, crônicas cotidianas – sim, eu sei, toda crônica real ou fictícia é cotidiana -, exercício que me ensinou a enxergar o ser humano a partir de lentes mais ajustadas, e aqui não tenho pretensões de romantizar qualquer aspecto de minha vivência. Mais do que escrever, percebo hoje, no dia em que parto para uma geografia mais familiar, a do cerrado brasiliense, o quanto aprendi também sobre o próprio brasileiro, o quanto a influência africana sobre nossa constituição é profunda e abrangente, permeando diversas esferas da sociedade e contribuindo para a formação de uma identidade nacional rica e diversa, sim, a alma brasileira é extremamente complexa, uma teia entretecida de bravura e sofrimento, crendices e sincretismos, moralismos e perversões, enfim, tudo quanto a experiência humana nos permite tocar.

Os exemplos disso apenas na cultura popular e de resistência são infindáveis, tal como a mulher negra e neta de escravizada liberta Chiquinha Gonzaga, pianista de primeira grandeza e “chorona”, autora da primeira marcha carnavalesca com letra e a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, isso tudo enquanto se envolvia nos movimentos abolicionista e republicano em marcha no país nas últimas décadas do século XIX. Ou tal como a eterna Dona Ivone Lara, falecida fisicamente em 2018, aos 96 anos de idade, que no refrão de “Tiê, Tiê”, samba de partido alto que compôs aos 12 anos, inseriu uma expressão provavelmente árabe aprendida de sua avó moçambicana. Ou tal como o poeta e compositor Ataulfo Alves, igualmente descendente de escravizados africanos, que daria tudo para voltar aos dias de criança, ele que como eu não entendia porque a gente cresce, se não sai da gente essa lembrança. Ou tal como Machado de Assis, Abdias do Nascimento, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus, Gilberto Gil…

Monte Namuli, onde o mundo foi criado

Monte Namuli, onde o mundo foi criado

Nesse exercício raso de escrita a que me propus, que é também e principalmente de autoconhecimento, procurei encontrar pontos de contato, temas comuns, universais até, entre a cultura brasileira e a de povos africanos. Um exemplo peculiar foi o da vida de Mohammad Garbo Baquaqua, de quem tratei em “Temos que sair do DOI-CODI”, ou Cidadanias Assimétricas: escravizado nascido por volta de 1820 da era da graça, no antigo e poderoso reino de Daomé, na costa ocidental da África, de etnia iorubá, sua história de luta pela liberdade e pela abolição da escravidão atravessou terras brasileiras, norte-americanas, haitianas e inglesas, e inspirou e impulsionou movimentos em prol da igualdade de direitos políticos e civis em sua época e até os dias de hoje, a exemplo do estadunidense Black Lives Matter, e de fato as vidas negras importam, intransitiva e intransigentemente. Outro exemplo que me chamou a atenção foi o da igualmente brilhante vida de outro escravizado originário da África Ocidental, conhecido apenas pelo seu nome de batismo, Onésimo, de quem discorri n’A vacina africana e o fim da pandemia, ele cuja história de resiliência cruzou o Atlântico no limbo de um navio negreiro e chegou a Boston, capital da província britânica da Baía de Massachusetts, em princípios do século XVIII, levando consigo o conhecimento de medicina tradicional – que consiste em esfregar um punhado de pus de um infectado pela varíola numa ferida aberta no braço de determinada pessoa – que salvou à época toda uma nascente sociedade cristã do novo mundo do extermínio, verdadeiro apocalipse, e deu subsídios para a posterior criação das primeiras vacinas da medicina ocidental.

A história do chamado “ocidente moderno”, vale dizer, e corrija-me, se necessário, é repleta de apropriações indevidas; se não mais da carne e da alma de africanas e africanos ou das riquezas naturais e minerais de suas terras, espólios de uma cultura escravagista e colonialista ainda fortemente enraizada, certamente dos pensamentos, saberes, filosofias desses povos, ou seja, de vivências que remontam aos primórdios da raça humana, ao surgimento do homo sapiens no Vale de Rift etíope, há mais de 200 mil anos, vivências que, sobrepostas umas às outras, criaram afinal no continente africano um caldo de cultura de sabores ao mesmo tempo diversos e únicos.

Tal exuberante riqueza, pois o mundo é feito fundamentalmente de exuberâncias, exuberâncias e mistérios, que se fazerm notar aqui e ali para emprestar sentido à vida, está acessível a todos n’O alegre canto da perdiz, obra pela qual a escritora Paulina Chiziane amarra a história do mundo, do princípio, de quando havia apenas uma mulher e um homem em luta eterna numa palhota de pau-a-pique, nos montes Namuli, na Zambézia moçambicana, ao final dos tempos, porque tudo um dia acaba, inclusive os preconceitos de raça e gênero, narrando entre o primeiro e o último ato os motivos e desejos que movem a existência: a colonização, a escravidão, as guerras, de um lado, mas também os projetos de liberdade e independência, de esperança redentora e de reconstrução, de outro.

De forma semelhante, a literatura de outro moçambicano, Mia Couto, alcança esse mesmo paradoxo, ou melhor, conjunto de paradoxos constitutivos do mundo das coisas, e que inclui em boa medida magias, rituais, mitos e histórias, muitas histórias, como a do menino órfão Kindzu, presente no romance Terra sonâmbula, ele que teve sua família e vilarejo exterminados no contexto da guerra civil que eclodiu após a conquista da independência política de Portugal. Sua trajetória, construída em linguagem poética e de maneira fragmentada, oferece uma reflexão profunda sobre os impactos devastadores da guerra e a capacidade do ser humano de encontrar esperança em meio à destruição, seja pela relação mantida com refugiados que encontra na estrada, seja pela busca irrefreável da própria identidade, encontrada enfim na proximidade com as coisas da terra, na ancestralidade, no sonho de se tornar um naparama, tal como definido por Mia Couto:

guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças, zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos contra balas.

Pouco se fala sobre a importância dos naparamas para o desfecho da guerra civil moçambicana, em princípios da década de noventa, eles que parecem retornar ao teatro de guerra hoje, na luta contra o persistente extremismo islâmico que se espalha no norte do país, e tampouco é meu papel refletir sobre questões políticas tão complexas, o que quero dizer é que, tendo residido em Maputo e circulado pela região austral da África, absorvi ensinamentos transformadores, aprendi a contemplar a tessitura do mundo sob um novo prisma, mais humanizante e interdependente (“eu sou porque nós somos”), entendi que sobre todas as coisas pairam mistérios sutis e se ouve uma melodia ancestral que nos une.

Somos, sim, uma espécie migrante e diversa, como me disse certa vez um jovem que conheci em Botsuana, e nisso reside a beleza da experiência humana sobre a Terra, isto é, não apenas na possibilidade de que podemos transitar por entre as encruzilhadas da vida, mas também na certeza de que, assim como a pangéia separou a humanidade lá atrás, um dia os continentes voltarão a se unir, mera questão geográfica, como já disse, bastante sólida e natural, mas que trará então um significado distinto. Nesse dia, que bela metonímia, os continentes serão substituídos pelo conteúdo na elaboração de políticas e estratégias de sobrevivência comum, e a raça humana terá realizado a utopia maior, a da imortalidade, tornando-se uma consigo mesma e uma com a terra, destino final de todos nós.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Gustavo Buttes

É diplomata de carreira e serve atualmente na Embaixada do Brasil em Moçambique. É mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco. Escreve para o IREE Cultura de forma independente, seus artigos não refletem a opinião do Itamaraty.

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