O Excesso de Apostos, Apostas e Apóstatas – IREE

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O Excesso de Apostos, Apostas e Apóstatas

7 de julho de 2026

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Aviso e participo: não estou com bom humor hoje. Nem nunca. O admirável otimismo que sempre norteou meus textos por aqui simplesmente foi destruído. Não temos jeito.

Senão vejamos: Flávio Taxadinha. Nunca fez nada como político, não tem projeto, condecorou bandido na cadeia, está metido em suspeita de rachadinhas, de ser o maior vendedor de chocolates da história, de ter uma mansão subfaturada – cujo valor reduzido também estaria fora de sua possibilidade financeira – foi pego pedindo dinheiro para bandido, a madrasta faz insinuações – como se precisasse de mais coisas! – , e ao pedir desculpas pelo que seu aliado neto de ditador Paulo Figueiredo disse, foi desmoralizado por este, que disse que estava tudo combinado.

E, além disso tudo, é feio.

Com todo esse CV – atenção, é Curriculum Vitae! – ainda tem 40% de eleitorado que diz que vai votar nele. Não é para desanimar?

E temos a epidemia de apostas. Depois de desbancar a Globo, a Cazé TV foi vítima de uma ENORME campanha contra. De fato, a forma dela anunciar as bets é uma esculhambação. Mas fica parecendo que é como se fosse um bolsonarista dizendo para outro que ele estava sendo bolsonarista demais – TODOS lucram com essa porcaria. Criticam – justamente – Neymar por isso – mas passam a mão na cabeça de Vini Jr. Criticam Virginia (quem?) e esquecem que Zico, patrimônio do Flamengo, também faz. Praticamente todos os clubes são patrocinados por elas. Idem nas estações de TV. 

Não tem que regulamentar, tem que proibir. 

Como disse, estou amargo hoje. Mas tenho que, urgentemente, fazer uma graça. Afinal, é para isso que sou contratado. 

Poderia falar da Festa das Astronautas… Mas não tem muita graça, também. Usar – o termo é esse – uma mulher de capacete, e escolhê-la ao levantar a viseira, demonstra um profundo mau gosto. Não sou contra a prostituição, acho que deveria ser regulamentada, – epa, faltaram os travessões! – mas ficar excitado numa situação como aquela, só mesmo sendo um defensor da tradicional família brasileira, pois, como disse o probo Anthony Garotinho, depositário da gravação, havia muitos destes na fita.

E perdi a oportunidade de mais alguns travessões.

Mas o mais palpitante assunto do momento é Michelle. A mais inteligente do clã – não que seja muito difícil ostentar este título – se esbaldou num longo depoimento desancando Flávio Taxadinha, cumprindo o tradicional papel de madrasta má. 

Eu confesso que quase fico com pena de Bolsonaro. Soluçando e com prisão de ventre, tem que administrar uma esposa rebelde e filhos imbecis. Sendo ele mesmo o mais imbecil de todos, com enorme dificuldade cognitiva, o imagino de olhos rútilos, trêmulo e babando, como um cretino nelsonrodrigueano, andando de um lado para o outro balbuciando coisas sem sentido e coçando o vão entre a canela e a tornozeleira. 

Fica a impressão que ele deve estar rezando para voltar para a Papuda. 

Damares Goiabeira se colocou do lado dela, o que bastou para que sofresse todo tipo de ameaças. Até foi acusada de ter um caso com um pastor! Ficou chocada, descobrindo como tratam as mulheres na extrema direita pátria. 

Não me espantaria se ambas se filiassem ao PT.

Uma observação avulsa: o jornal O Cafezinho diz que Ciro Gomes – que tem um brilhante futuro às suas costas – pretende contactar Israel (!) e o Mossad para ajudar na sua futura administração no Ceará. Está superando o bolsonarismo – afinal já se equiparou, ao pedir apoio dos gado vacum “honrados e limpos”. 

Ou, quem sabe, precisa da ajuda do Mossad para encontrar um bolsominion que atenda a esses requisitos?

Pois estava neste estado de humor quando o céu se fechou. Nuvens pesadas, um cheiro pútrido, mistura de podridão e enxofre, um vento morno, pesado, úmido de lodo, os pássaros calados… Fiquei em pânico. 

Na minha frente, capengando com seu pé defeituoso, sua pele macilenta, seus olhos mortos, estava Joseph Goebbels, ministro de propaganda do Reich.

Segurei minha ânsia de vômito, tentei seguir em frente, mas ele me deteve. Recuei, com medo dele tocar em mim com aquelas mãos molhadas.

-Não quer conversar?

-Não, de forma alguma.

-Eu acho que deveria. Gostaria de te ajudar a aproveitar o momento. Estou muito feliz, o mundo está ficando muito parecido com o que criamos há quase 100 anos…

Deu um sorriso torto, feio, repulsivo.

-Verdade. Mais motivo ainda para eu sair daqui.

-Mas espere! Espere, um dedo de prosa – você não é judeu, certamente…

-Não, não sou.

-Mas olhe, não fosse eu quem sou, até teria orgulho deles! 

E gargalhou, seu hálito de esgoto me atingiu como um soco.

-Vou embora!

-Calma, calma… No seu país, mesmo. 700 mil mortes na pandemia… Pelo menos metade poderia ser evitada! Um bom começo, sem dúvida – e 33 milhões passando fome! Bons números, bons números!

-Afinal, o que você quer?

-Quero fazer um mea culpa. Nos anos 30 e 40 fizemos de tudo para esconder o que estávamos fazendo. Tínhamos medo das pessoas se revoltarem. Quem diria, poderíamos ter contado tudo, faríamos o que fizemos e seríamos aplaudidos, como acontece hoje!



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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