O consumo das famílias como motor do PIB – IREE

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O consumo das famílias como motor do PIB

Yasser Hatia

Yasser Hatia
Administrador especialista em varejo e serviços



O varejo é parte importante da vida dos brasileiros. Considerado um dos principais pilares da economia, o setor tem ocupado lugar de destaque, apesar das dificuldades que vem enfrentando nos últimos anos devido ao aumento do custo de capital, oferta restritiva de crédito e redução da cesta de consumo das famílias por força da inflação. Mas, para além desses desafios, o grande privilégio do segmento é funcionar como um termômetro da economia real devido à sua posição estratégica na distribuição de produtos e serviços e à sua proximidade com o cliente final.

Apesar das dificuldades macroeconômicas dos últimos anos, o consumo das famílias brasileiras atingiu a marca de R$ 6,25 trilhões em 2022, uma alta de 4,3% sobre o ano anterior. As projeções para 2023, segundo a pesquisa realizada pelo IPC Maps, são da ordem de R$ 6,7 trilhões, um aumento real de 1,5% em relação a 2022. Vale ressaltar que, nesse mesmo período, tivemos uma alta histórica na proporção do consumo das famílias brasileiras na composição do PIB, que passou de 60,97% em 2021 para 63,07% em 2022.

O ano passado foi marcado pela recuperação de fôlego do comércio. Com a melhoria nas condições sanitárias pós-covid, o ritmo de crescimento no consumo de serviços foi bem acelerado, muitas vezes explicado pela demanda reprimida e pela valorização do consumidor, que é uma das principais características do setor de serviços. As famílias voltaram a viajar, frequentar restaurantes, bares e hotéis e isso impactou positivamente a demanda interna e, consequentemente, o PIB.

Entretanto o consumo das famílias opera em ritmo mais lento esse ano quando comparado ao do ano passado e não tem mostrado sinais de que vai apresentar uma grande reação até o fim de 2023. Os economistas projetam o consumo das famílias com uma alta inferior a 2%, segundo reportagem do jornal Valor Econômico. Esse dado é extremamente importante, pois o setor de varejo ainda é muito estimulado pelo consumo das famílias, sendo um fator relevante para mensurar o ritmo de crescimento desta atividade.

Segundo o IBGE, os dados mais recentes sobre o setor mostram que, em julho de 2023, o volume de vendas do comércio varejista teve alta de 0,7% frente ao mês anterior. Em comparação ao mesmo mês de 2022, houve alta de 2,4%, e o acumulado do ano até julho foi de crescimento de 1,5%. Mas apesar do último indicador de crescimento ser positivo e de presenciarmos uma recomposição nos reajustes salariais, uma parte relevante desta correção ainda está sendo perdida com o aumento dos preços, apesar de a inflação mostrar sinais de recuo.

Além disso, a restrição de crédito e a perda no poder aquisitivo devido à inflação dificultam o planejamento e a poupança das famílias, que já havia sofrido durante os anos mais críticos da crise sanitária. Um outro indicador que reflete este cenário, segundo economistas da FGV, seria a evolução da variável “intenção de compra de bens duráveis”, que registrou 79,9 pontos em maio, menor patamar desde o período que engloba a pré-pandemia e o pós- recessão.

Grande parte dos economistas acredita em um cenário de melhoria no médio e longo prazo, pelos estímulos decorrentes da continuidade dos cortes na taxa básica de juros pelo Banco Central. Mas os efeitos do afrouxamento monetário não são imediatos, demandando um certo tempo para se verificar os efeitos positivos na economia. Além disso, as pessoas ainda estão muito endividadas e o alto nível de endividamento diminui o espaço no orçamento para compras de produtos e serviços, forçando um consumo mais seletivo daquilo que realmente importa na cesta de consumo familiar.

Neste cenário, as empresas de varejo enfrentam uma soma de desafios: o alto nível de estoque e de endividamento, baixo nível de investimento, crédito restritivo e endividamento das famílias. Segundo a Sociedade Brasileira de Consumo e Varejo, apesar de todos esses fatores, há uma oportunidade para aquelas empresas que estão mais bem estruturadas e focadas na questão fundamental da conexão com o consumidor e sua dinâmica atual.  Não se pode perder o foco naquilo que é mais relevante para o consumidor, visto que os resultados econômico-financeiros serão consequência dessa proximidade com os clientes que, cada vez mais conectados e exigentes, serão a engrenagem de incentivo às transformações e aperfeiçoamentos das operações de venda de bens e serviços.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Yasser Hatia

Empresário, graduado em administração de empresas pela FGV e mestre em gestão pela FGV Eaesp. Iniciou sua carreira no mercado financeiro atuando na área de fusões e aquisições. Atualmente exerce atividade profissional no segmento de varejo e serviço.

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