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O censo anual do comércio aponta mudanças estruturais no setor

12 de agosto de 2024

Yasser Hatia

Yasser Hatia
Administrador especialista em varejo e serviços



O IBGE divulgou, no final de julho de 2024, o Censo do Comércio referente ao ano de 2022. Embora este seja um retrato relativamente defasado da realidade atual vivida pelo setor, as variáveis investigadas pelo IBGE revelaram mudanças estruturais relevantes sobre o comércio brasileiro.

A Pesquisa Anual do Comércio buscou fazer um comparativo cronológico sobre alguns fatos marcantes que impactaram o segmento, como a recessão de 2015-2016 e posteriormente a crise sanitária em 2020, onde o fechamento de pontos de venda foi muito expressivo. No final de 2020, o comércio e suas subdivisões já acusavam o fechamento de mais de 112 mil empresas, uma queda brusca de 7% referente ao ano anterior.

O censo anual do comércio aponta mudanças estruturais no setor

Fonte: IBGE

A maior perda de pontos de venda ocorreu no comércio varejista, que registrou uma queda de 8,7% das operações em apenas um ano. O segundo maior fechamento ocorreu no segmento automotivo, com queda de 8,5% no número de pontos de venda de autopeças e veículos. Curiosamente, na contramão destes indicadores, o comércio atacadista registrou expansão de 3,1% em números de estabelecimentos com 7.014 novas unidades em operação.  

Segundo o IBGE, em 2022, o comércio brasileiro conseguiu reestabelecer a quantidade de pontos de venda aos níveis observados em 2019 atingindo 1,62 milhão de estabelecimentos. Este avanço se deu principalmente pela expansão de empresas atacadistas, cuja quantidade de lojas em 2022 já era 17,7% maior que em 2019, ou seja, foram abertas 40,1 mil novas lojas neste formato. No mesmo período, o varejo registrou (-24,1) mil lojas e o comércio automotivo (-1,4) mil lojas, demonstrando que não conseguiram retomar o número de pontos de venda observados três anos antes.

Por outro lado, a restrição sanitária criou limitações operacionais aos estabelecimentos físicos e estimularam a abertura de lojas de comércio eletrônico. Desta forma, a quantidade de empresas com receitas provenientes exclusivamente de transações online cresceu 79,2% entre 2019 e 2022. Neste mesmo período, o faturamento do varejo online brasileiro cresceu 225%.

Além da presença maior do e-commerce no consumo, o segundo fenômeno marcante dos últimos anos foi o fortalecimento do atacarejo, cuja modalidade é marcada por diferenciação de preço mediante compras em maior quantidade. Pela primeira vez desde o início da pesquisa em 2007, as vendas no atacado se tornaram a modalidade predominante no comércio brasileiro. 

Frente a recuperação nas vendas do comércio e diante da vocação empregadora do segmento, a pesquisa observou uma forte recuperação dos empregos em 2022. No mesmo período, foi contabilizado pelo comércio 10,34 milhões de trabalhadores formalmente ocupados, o maior patamar observado pela pesquisa desde 2014 quando foi registrado 10,63 milhões de trabalhadores ocupados. A empregabilidade no setor assumiu tendência de recuperação nos últimos anos, após a perda significativa provocada pela pandemia. Dessa forma, destaca-se novamente a abertura de postos de trabalho no comércio atacadista que registrou alta de 11,8% ou 200,1 mil postos em 2022.

Dessa forma, além da recuperação nas vendas e dos empregos, a pesquisa evidenciou outra conquista para o segmento, especialmente para os trabalhadores. Em 2022, foi a primeira vez desde 2007 que a remuneração média mensal alcançou dois salários-mínimos por mês, indicando ganhos reais em relação à inflação, uma vez que o salário médio mensal cresceu 246% em 15 anos contra um avanço de 148% da inflação no mesmo período.

Enfim, o IBGE parece confirmar que, se a recessão 2015-2016 e a pandemia ficaram para trás, o setor comercial emerge com importantes mudanças estruturais, incluindo o fortalecimento do atacado e do atacarejo, uma consistente evolução do e-commerce e um importante crescimento da massa salarial do setor.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Yasser Hatia

Empresário, graduado em administração de empresas pela FGV e mestre em gestão pela FGV Eaesp. Iniciou sua carreira no mercado financeiro atuando na área de fusões e aquisições. Atualmente exerce atividade profissional no segmento de varejo e serviço.

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