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O carnaval e outras festas: o espaço para o sonho e o delírio

30 de janeiro de 2026

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Encontrar espaço para o sonho, o transe e o delírio. Afirmar a vida na sua vertente criativa e assombrada. O carnaval é a alegoria popular que, sob o signo da festa, aglutina a fantasia constitutiva que atravessa a existência e nos resgata da banalidade da crença numa normalidade em que os sentidos se dão de antemão. Da fabulação engendrada na celebração dionisíaca podemos entrever o que Freud convoca como “uma outra cena” que pulsa logo abaixo de nossa suposta racionalidade.

Nesse encantamento prismático encontramos parte da memória social que se dá como uma espécie de delírio poético forjado no encontro com as ruas ou na observação do insólito no cotidiano. O carnaval é uma festa que, ao ensaiar modelos de mundo novos, nos convida para que reviremos o que está pronto, como uma convocação para que possamos mergulhar na vertigem do delírio como invenção.

 

 

Na efervescência da festa, uma espécie de efeito catártico coloca trégua e alívio às proibições. Fantasiados e mascarados transmutam as pessoas, revelam que “o eu é sempre outro” e que há sempre “uma outra cena” no campo da imagem. Se o carnaval nos serve de paradigma é justamente por abrigar a desordem que vira as convenções do avesso, nelas incluindo o fantástico e o demoníaco da existência, forjando uma espécie de fúria desejante e implacável do desejo e do assombro.

O livro “Festas populares no Brasil”, de Lélia Gonzalez, apresenta registros fotográficos de festas populares do Brasil de norte a sul, com textos informativos que explicam as marcas da herança africana na cultura brasileira, a integração entre o profano e o sagrado e a reinvenção das tradições religiosas na formação do imaginário cultural brasileiro. Escrito em 1987, trata-se do único livro que a pensadora, acadêmica e militante do movimento negro brasileiro, publicou em vida exclusivamente como autora.

Lélia Gonzalez é uma das mais importantes intelectuais brasileiras do século XX. Sua trajetória se caracterizou pela atuação em diferentes frentes do movimento social e pela produção de uma obra que articula, de maneira original, teoria e prática política. Sua produção intelectual denuncia mecanismos de opressão e também propõe novas categorias e interpretações capazes de ampliar os horizontes do pensamento social brasileiro. Seus escritos abordam questões centrais para a compreensão da sociedade brasileira, como colonialismo, capitalismo, racismo, sexismo e a divisão sexual e racial do trabalho. Sua produção apresenta uma série de reflexões importantes, ao colocar em evidência sujeitos historicamente silenciados e afirmar a centralidade da cultura negra como chave interpretativa da formação social do Brasil.

“Trabalho de Carnaval” – uma exposição coletiva de curadoria de Ana Maria Maia e Renato Menezes, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até 12/04/2026 – apresenta obras de 70 artistas de diferentes gerações e origens e mostra aspectos importantes da festa, como uma grande construção social. O ato de se fantasiar, a força da imaginação, os trabalhadores que fazem o carnaval acontecer, as relações da festa com os espaços urbano e rural, os blocos, os cordões, os afoxés e outros cortejos, reis e rainhas do maracatu, mulheres negras, grupos periféricos marginalizados, deusas de ébano, reis e rainhas do carnaval. Dividida em quatro temas – Fantasia, Trabalho, Poder e Cidade – a exposição revela a cadeia produtiva da maior festa popular do país, que envolve o trabalho de milhares de mãos durante o ano todo, feito bem antes das datas oficiais. Além de beleza e encantamento, a mostra revela também a precariedade e invisibilidade das pessoas que fazem o carnaval acontecer.

É importante que resgatemos a dimensão política da arte popular. O carnaval, uma das expressões populares mais agudas do país, é uma celebração da vida como potência fabulatória, um contraponto à escassez imaginativa de nosso tempo. É preciso desvairar a linguagem e a imagem para encontrarmos, do outro lado, a fantasia, o sonho e a fabulação como gestos estético e político que possam dizer ainda de nossas utopias coletivas.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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