O Careca, Barrabás e O último Idiota – IREE

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O Careca, Barrabás e O último Idiota

4 de agosto de 2026

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



-Ministro, não acharam nada do Lulinha com o Careca.

-Com o Moraes?

-Não, o do INSS.

-Ah, bom, mas nada mesmo?

-Negativo. Mas acharam uma ligação do Careca com um ex-ministro do trabalho!

-Ótimo! Qual?

-O do Bolson…

-Esquece, esquece! E a amiga do Careca, acharam algo errado com ela e Lulinha?

-Nada. Mas achamos com um candidato à presidência!

-O Lula?????

-Não, o Flav…

-Esquece, esquece! Mas o Lulinha não fez nada?

-Investigamos ele por 20 anos, e ainda não achamos!

-Mas tem que ter algo! Afinal, nenhum filho de presidente é inocente! Nenhum!

-Bem, podemos ir por aí…

-Como?

-Tráfico de influência!

-Será?

-Melhor que nada…

 

Lulinha deve ser o sujeito mais honesto – ou mais esperto – do mundo. Desde que seu pai assumiu ele é investigado, espionado, tem sua vida fuçada de todo jeito. Bisbilhotam sua gaveta de cuecas, seu perfil no XVideos, e nada. E nada. Nadinha. Nadica de nada. Nem uma mísera lojinha de chocolates. De vez em quando exigem sua prisão, sabe Deus por quê. Mesmo assim, os 3 “grandes” jornais anunciaram em letras garrafais, com as mesmas palavras, bem copia-e-cola, que Mendonça autorizou a PF a investigá-lo.

-Purcaudiquê?

-Lobby, meu senhor.

-E o Lula, mandou parar a investigação?

-Não, senhor.

-Mas o Mito demitiu gente que começou a investigar o fio dele.

-Mas Lula é diferente!

-Tá certo. Vou votar no Frávio.

Esse é o ponto. Um presidente americano, não lembro qual, achava que ninguém ouvia o cumprimento protocolar em filas de apertos de mão. Ele passou a dizer, meio murmurando, para provar sua tese:

-Como vai? Eu hoje matei minha avó.

E isso era sempre, até que um dia alguém respondeu:

-Ela deve ter merecido, sr Presidente.

O quadro eleitoral é assim: o cara pode ter sido filmado matando filhotinhos de dálmata para fazer um casaco, que ainda assim o gado vota nele.

Bem, escolheram Barrabás.

E Michelle? Ah, Michelle! Nossa expri é brilhante. Certamente nunca leu Maquiavel, ou Sun Tzu, mas poderia lhes dar lições. Enquanto seus amados enteados se fartam de capim, ela plana, soberana, esperando o momento de dar o bote. Que dará. Se o país fosse uma balança de Roberval (eu gosto de usar expressões pouco usuais, mas essa eu acho melhor explicar: é a balança com dois pratos sustentados por uma haste), de um lado teríamos Michelle, Flavio, Zema, Caiado, Renan. Do outro, Lula, sozinho, sem um dedo e magrinho, em boa forma, pesando mais que todos juntos.

 

E esse mês tivemos o desprazer de ver as redes perturbando o monstro João Bosco. As espiroquetas ficaram indóceis pois reclamaram de uma música dele e do não menor Aldir Blanc em que o marido bate de cinto na mulher por causa de um jogo de futebol. Ora, essa gente ignorante (a mesma que impediu a grande Fabiana Cozza de interpretar Dona Ivone Lara por não ser suficientemente preta. Que impediu o excelente ator Luis Lobianco – homessexual na vida real – de interpretar uma travesti numa peça de teatro por ele não ser uma) não tem ideia do que seja um Eu Lírico, não sabe entender a sutileza de uma denúncia. João mandou essa gente se medicar, o que achei bem pouco. Foi um caos! Ele não recebeu o memorando com as respostas aceitas pelas redes sociais e cometeu o erro de dizer o que achava. Dezenas de obscuros querendo seus quinze minutinhos de Andy Warhol, às custas de quem tem serviços prestados ao país por mais de 50 anos. Um bando de mosquitos rondando um monumento.

 

Pois estava justamente pensando nisso quando vi, chupando um ChicaBon na carrocinha de sorvete, Nelson Rodrigues.

Com as mãos trêmulas fui em direção ao mestre. Ele me olhou com olhos de São Bernardo, e balbuciou:

-O que deseja, meu rapaz?

-Só conversar, seu Nelson.

-Conversar? Não se conversa, a conversa é uma arte perdida. O sujeito hoje te agarra pela gravata e lança perdigotos no teu ouvido, dizendo algo digno de uma cavalgadura; você tenta responder alguma coisa inteligível e ele já está assoviando para uma pequena que passa. Ninguém ouve ninguém – só os idiotas ouvem uns aos outros, com a baba escorrendo-lhes pelo queixo.

-Mas o senhor sofreu com esses idiotas?

-Meu filho, os idiotas são o pão com manteiga da vida cotidiana. Eles transmitem sua inutilidade da mesma forma que um mosquito transmite malária. Eu tinha minhas doces e santas obsessões: os contínuos, por exemplo: ainda existem?

-Não sei dizer…

-Pois eu achava que o contínuo deveria ter sobre a cabeça uma auréola de santo de procissão. Ele engolia os insultos, fazia as coisas mais vis para garantir os trocados no fim do mês. Pois eu colocava nas minhas peças as pessoas humilhando-os, especialmente os que ascendiam na vida. Pois os granfinos, meu filho, não aceitam quem vem de baixo. Se fosse agora, a associação de contínuos ia querer comer meu fígado, pois hoje se entende menos que ontem. Veja só o biquini: é a degradação da nudez, o fim do mistério. Mas as mulheres lutaram para poder usá-lo. Ela pode usar na praia, expondo gratuitamente aquilo que só aos maridos deveria ser permitido, e mesmo assim à meia luz. Mas não podem mostrar mulher de biquini em anúncios, pagando bem, pois isso “objetifica” a mulher. Ou seja, de graça pode; pagando, só de burca.

Eu estava confuso diante de tantos argumentos, mas resolvi fazer uma última pergunta.

-Mas, seu Nelson, tem solução?

-Meu filho, eu sou de direita, como se deve ser. Mas eu disse um dia: No Brasil, as coisas ficarão como estão até que a esquerda se una até o último idiota.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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