O caminho para humanização é através da cultura – IREE

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O caminho para humanização é através da cultura

João Camarero

João Camarero
Coordenador do IREE Cultura



O pavimento para caminharmos em direção a uma sociedade mais democrática é a cultura. As diversas manifestações artísticas carregam também esse papel de despertar a humanidade em nós, como amuletos. Poder olhar o mundo sob a ótica de outrem é uma ferramenta absolutamente transformadora, e, se abertos para isso, podemos sim acreditar em uma sociedade mais justa com sua base na diversidade humana.

A criação do IREE Cultura vem reforçar o que o instituto propõe como fundamento de sua estrutura: fortalecimento do diálogo e acesso à informação criando pontes – através de um elenco baseado na diversidade – de acesso aos mais variados temas que concernem o universo artístico. Promover conteúdo através de colunas mensais, podcasts, lives e vídeos – tudo num formato totalmente digital durante o momento de pandemia. Posteriormente, trazer as atividades presenciais.

Como ponto de partida, além do foco em música, cinema e literatura, contaremos com a criação de um braço exclusivamente dedicado à cultura indígena: dimensionar e compreender o tamanho da influência que esse poço antropológico nos traz é um caminho para entendermos a profundidade das raízes das artes do país.

A consolidação do Brasil como potência artística se dá, principalmente, através do reconhecimento e valorização de culturas tradicionais (povos nativos, de matriz africana e suas capilarizações) sem um olhar pré-estabelecido e colonizador, sempre impondo a ótica da dita “Alta Cultura” de maneira verticalizada, olhando para baixo para enxergar a cultura popular brasileira.

Tirar o artista desse lugar menor e trazê-lo para frente é uma maneira de quebrar esse ciclo vicioso e dar luz aos verdadeiros protagonistas de manifestações populares, fortalecendo as cadeias mais desfavorecidas e historicamente exploradas em todos os sentidos. Isso é uma missão: investir nas diferenças para resgatar e fomentar o senso de coletividade como uma grande integração.

Para além do conteúdo unicamente artístico, o núcleo de cultura também cumpre seu papel alinhado às diretrizes do IREE através da promoção de debates, diálogos e encontros para discutir soluções econômicas, gestão e ferramentas para reconstruir a política pública cultural e tê-la de fato como um direito básico.

A Constituição Federal, em seu Art. 215 estabelece que Estado deverá garantir aos cidadãos brasileiros o pleno exercício dos direitos culturais, o acesso às fontes da cultura nacional e a proteção das manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras e de outros grupos formadores da nossa cultura. O art. 216 da Carta Magna, por sua vez aborda a responsabilidade do Estado na proteção do patrimônio cultural brasileiro.

O setor, marcado historicamente por esparsos recursos financeiros e humanos, precisa ser pensado. Os primeiros estudos acadêmicos sobre políticas culturais datam apenas da década de 80, pois a cultura como política pública dá seus primeiros sinais com a criação do Departamento de Cultura de São Paulo e a atuação nas décadas de 1930/40 do governo Vargas. Nos anos 1970 na Ditadura Militar, é criada a Política Nacional de Cultura. Finalmente, na redemocratização nos anos 1980, é criado o Ministério da Cultura, já dissolvido e recriado mais de uma vez. Hoje, o enorme setor respira por aparelhos com ataques à instituições consolidadas como a Ancine, por exemplo, além de uma Secretaria que funciona mais como um cabide ideológico de absurdos. Não existe uma continuidade de políticas públicas para o setor, e nunca foi necessário tanto apoio como agora durante a pandemia.

A intersecção público-privada foi, desde a implementação do governo neoliberal de FHC, o grande motor financeiro do setor cultural. Esse modelo, apesar de ter tido resultados inquestionavelmente satisfatórios, precisa ser redesenhado a partir de processos mais inclusivos. A participação da sociedade civil nesse debate se faz mais que necessária, especialmente em um momento em que governantes colocam artistas como vilões por utilizarem de verba pública.

É latente a necessidade de unir todas as pontas em um objetivo comum: encontrar caminhos abrangentes, sustentáveis e democráticos para o fortalecimento da cultura como um todo, não apenas como objeto de mercado mas também como um grande quadro com a imensa identidade nacional brasileira.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

João Camarero

Coordenador do IREE Cultura, é violonista, compositor e arranjador. Com destacada atuação como solista, se apresentou em importantes salas de concerto pelo mundo, além de trabalhar ao lado de grandes artistas. Desenvolve trabalho de pesquisa e ensino na área da música brasileira.

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