O brasileiro está perdendo o controle das dívidas? – IREE

Análises e Editorial

O brasileiro está perdendo o controle das dívidas?

6 de abril de 2026

O avanço das dívidas das famílias brasileiras acendeu um sinal de alerta. Dados recentes mostram uma combinação preocupante: maior comprometimento da renda, aumento da inadimplência e juros elevados, um problema que pressiona especialmente os mais vulneráveis.

Em janeiro, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 29,3%, o maior nível já registrado. Um ano antes, esse percentual era de 27,7%. No mesmo período, o endividamento passou de 48,4% para 49,7%, segundo dados do Banco Central. Na prática, isso significa que uma parcela cada vez maior da renda está sendo direcionada ao pagamento de dívidas, reduzindo a capacidade de consumo e de poupança das famílias.

Os juros altos agravam o cenário. A taxa média de juros para pessoas físicas e jurídicas subiu de 32,7% ao ano em janeiro para 33% ao ano em fevereiro. No caso do cartão de crédito rotativo, os juros chegaram a 435,88% ao ano para pessoas físicas. Esse nível de custo do crédito dificulta a quitação das dívidas e contribui para a formação de um ciclo de endividamento.

 

 

O aumento da pressão financeira já começa a se refletir nos atrasos. Em fevereiro, a taxa de inadimplência total atingiu 4,3%, com alta de 0,2 ponto percentual no mês e de 1 ponto percentual em 12 meses. Entre pessoas físicas, a inadimplência chegou a 5,2%, enquanto entre empresas ficou em 2,6%. O movimento indica deterioração da capacidade de pagamento e aumento do risco no sistema de crédito.

Por que o endividamento está crescendo

Segundo o Banco Central, parte desse avanço está relacionada a mudanças no modelo de crédito consignado para trabalhadores do setor privado e ao aumento da demanda por crédito emergencial. Mas há também novos fatores em jogo. O crescimento das apostas online passou a exercer pressão adicional sobre o orçamento das famílias, ampliando o risco de desequilíbrio financeiro.

As chamadas “bets” ganharam escala no país. No último ano, 39,5 milhões de brasileiros participaram de apostas online. Desses, cerca de 19% — o equivalente a 7,5 milhões de pessoas — relatam comprometimento da renda com esse tipo de gasto, segundo dados da CNDL e do SPC Brasil.

Um estudo do Ibevar em parceria com a FIA aponta que o impacto das apostas sobre o endividamento pode ser relevante, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento das famílias. Segundo a pesquisa, o coeficiente estimado para esse fator (0,2255) supera o de variáveis tradicionais, como juros (0,0709) e relação crédito/renda (0,0440). O resultado, no entanto, é contestado por entidades do setor, que apontam limitações metodológicas.

Impacto maior entre os mais pobres

Famílias de menor renda são as mais expostas ao endividamento e à inadimplência. Quem ganha até dois salários mínimos representa 18,2% do crédito total, mas concentra participação maior em linhas mais caras: 26,5% no crédito pessoal não consignado e 39,3% no cartão de crédito rotativo. Isso aumenta o risco de inadimplência e agrava a vulnerabilidade financeira desse grupo.

Diante do cenário, o governo federal prepara um programa de renegociação de dívidas voltado a modalidades como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia. Segundo o Ministério da Fazenda, a proposta pode prever descontos de até 80% sobre o valor devido. A medida busca reduzir a inadimplência e aliviar o nível de endividamento das famílias.



Por IREE

Leia também