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O Brasil rumo à série D: Um histórico da crise

Guilherme Mello

Guilherme Mello
Economista e sociólogo



Imagine que um time de futebol, que passou quase uma década ganhando títulos, estava próximo da zona de rebaixamento. Após gastar muito dinheiro com jogadores cobiçados pelo mercado, os resultados não vieram e os investimentos se provaram equivocados.

A diretoria decidiu dar um voto de confiança para o treinador e prorrogou seu contrato, dado seu passado vitorioso. No ano seguinte, o treinador tenta mudar a estratégia de jogo, atendendo as demandas da imprensa especializada. O resultado é desastroso e o time é rebaixado para a série B.

Reunida, a direção decide mudar tudo: demite o treinador, contrata um novo técnico e troca uma série de jogadores. O novo comandante promete que com os reforços que trouxe consigo, em breve o time irá se recuperar e estará disputando títulos novamente. A torcida se anima, a imprensa esportiva exalta a mudança de ares, mas ao final do ano o time apresenta um péssimo futebol e é rebaixado para a série C.

“A culpa é do treinador anterior”, diz o novo comandante, que acusa seu antecessor de ter deixado um legado negativo. Pede mais tempo e paciência, novamente prometendo que, com algumas mudanças, o time irá engrenar.

Quatro anos depois, o time não saiu da série C. Cada início de ano traz novas promessas, cria-se uma grande expectativa que, ao final do ano, se prova mais uma frustração. E agora, em 2020, o ano mal começou e o time já está na zona de rebaixamento, rumo à série D! Perguntado sobre os péssimos resultados e as terríveis perspectivas, o treinador insiste que está no caminho certo e que basta “torcer pra dar certo”. Como a diretoria deve reagir?

Quem viveu no Brasil na última década perceberá que essa “alegoria futebolística” serve como uma luva para descrever a situação da economia brasileira. Desde meados dos anos 2000, o Brasil passou a ser visto como um “casede sucesso internacional, combinando crescimento econômico e distribuição de renda. Até chegamos a superar a maior crise financeira da história sem grandes solavancos imediatos.

A partir de 2011, o governo Dilma aposta em uma agenda para elevar a competitividade da indústria, cada vez mais ameaçada pela concorrência chinesa. Promove subsídios, desonerações, redução de custos para o empresário, mas o resultado não vem.

Reeleita, tenta mudar a estratégia, implementando o ajuste recessivo e a política de austeridade tão desejada pela imprensa e parte dos empresários. O resultado é um fracasso: o país adentra a maior recessão de sua história e, em abril de 2016, o golpe liderado por Eduardo Cunha leva Michel Temer ao poder.

Temer traz consigo o chamado “Dream Team” da economia, composto por ex-banqueiros. Acreditavam que, com a saída de Dilma e a adoção de uma agenda neoliberal, a confiança retornaria, os investimentos fluiriam, o crescimento seria restabelecido e uma nova era de prosperidade teria início. É verdade que, para isso, seria preciso algo além da mudança na condução da política econômica: as chamadas “reformas” seriam a verdadeira garantia da retomada, com efeitos imediatos sobre as expectativas (e, portanto, sobre o crescimento) e de longo prazo sobre a produtividade.

Quatro anos após a saída de Dilma e muitas “reformas” depois, o Brasil segue em sua profunda depressão, sem perspectivas de recuperação do crescimento no curto e médio prazo. A divulgação do crescimento do PIB de 1,1% em 2019 (ainda menor do que nos anos de Temer) e as perspectivas cadentes para o PIB de 2020 são provas cabais do absoluto fracasso da estratégia liberal. A retomada do patamar do PIB de 2014 é seguidamente adiada diante das recorrentes frustrações da propalada “recuperação”, fazendo com que nem em 2023 consigamos recuperar o tempo perdido.

Mas não é só a estagnação do PIB que evidencia o fracasso da estratégia neoliberal. O aumento da desigualdade de renda, da pobreza, da fome, da informalidade e da precarização são algumas das formas mais cruéis que o fracasso neoliberal se revela.

Além disso, a deterioração dos indicadores sociais, das contas externas, da estrutura produtiva e (pasmem) dos indicadores fiscais são outros sinais evidentes de que a estratégia não apenas não entregou o que prometeu, mas sim o seu contrário.

Para piorar, o balanço de riscos para a economia brasileira se deteriorou significativamente nos primeiros meses do ano de 2020. A crise do coronavírus fez com que o real se tornasse a moeda que mais perdeu valor no mundo.

A bolsa de valores desabou e o pouco que sobrou de capital externo foge para a segurança dos títulos americanos. Se esse cenário prosseguir estaremos diante de uma grave crise, mas dessa vez partindo de um patamar de pobreza, desemprego e crescimento bem menores do que no passado.

Como o governo irá reagir? Se ficar apostando todas as fichas na estratégia que se provou fracassada nos últimos cinco anos, uma nova recessão será inevitável. Para quem se acostumou a ser rebaixado, é bom lembrar que a série D é logo ali.



Guilherme Mello

É economista e sociólogo, com mestrado em Economia Política pela PUC-SP e doutorado em Ciências Econômicas pela Unicamp. É professor do Instituto de Economia da UNICAMP e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura do IE/UNICAMP. Foi assessor econômico para a campanha de Fernando Haddad à Presidência da República em 2018.

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