O Brasil está quebrando? – IREE

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O Brasil está quebrando?

31 de agosto de 2026

Samantha Maia

Samantha Maia
Diretora de Comunicação do IREE



As notícias recentes de pedidos de recuperação judicial de grandes companhias, como Casas Bahia, Marabraz e Habib’s, além do crescimento do endividamento da população, têm alimentado, em meio ao clima eleitoral, um alarde nas redes sociais sobre uma suposta crise generalizada na economia brasileira. Mas o que dizem os dados? O Brasil está realmente quebrando?

As empresas brasileiras de fato enfrentam dificuldades financeiras que demandam atenção, especialmente em um cenário de juros altos e mercado competitivo. Em 2025, foram registrados 977 pedidos de recuperação judicial, o maior número desde 2016. Mas recuperação judicial é um mecanismo para renegociar dívidas e evitar que a empresa encerre suas atividades. E, se olharmos para as falências, foram registrados 686 casos no mesmo ano, o menor número desde 2012. Ao mesmo tempo, empreendedorismo continuou forte: 1,3 milhão de empresas foram abertas em 2025, sem contar os MEIs, um recorde histórico.

Outro barulho que ganhou força nas redes é o de que haveria neste momento uma debandada de empresas do Brasil para o Paraguai. O argumento enganoso parte de um dado real de que, desde 2007, 232 companhias brasileiras passaram a produzir no país vizinho. O número, porém, abarca duas décadas e não significa que essas empresas tenham deixado o Brasil, pois envolve casos de expansão das operações e de transferência de parte da produção.

Na esteira desse assunto, conteúdos falsos sobre fechamentos de fábricas e demissões também são apresentados como sinais de uma fuga de empresas, fatos facilmente desmentidos quando checados com dados das próprias companhias, como é o caso da Nestlé, que tem investimentos anunciados de R$ 7 bilhões até 2028 no Brasil, e da Toyota, com R$ 11,5 bilhões a serem aportados no país até 2030.

Os dados agregados também não apontam para uma retirada de investimentos no Brasil. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede os investimentos em ativos produtivos, cresceu 2,9% em 2025, enquanto o país recebeu US$ 77,7 bilhões em investimento estrangeiro direto, o maior valor desde 2018. No mesmo período, a economia brasileira continuou crescendo: o PIB avançou 2,3%, com alta de 11,7% na agropecuária, 1,8% nos serviços e 1,4% na indústria.

O mercado de trabalho é mais um indicador do dinamismo da economia brasileira. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor nível para o período desde 2012. A população ocupada chegou a 103,3 milhões de pessoas, recorde da série, enquanto o número de trabalhadores no setor privado alcançou 53,2 milhões, o maior já registrado. Se olhar para a renda, os dados também são positivos. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita chegou a R$ 2.264, o maior valor da série histórica da PNAD Contínua, com alta de 6,9% em relação ao ano anterior. Segundo cálculo da FGV, a proporção da população em situação de pobreza caiu para 25,1% em 2025, ante 39,1% em 2021, enquanto a extrema pobreza recuou de 11,2% para 4,6% no mesmo período.

Mesmo com a melhora desses indicadores, o endividamento tem se agravado nas famílias, empresas e mesmo no governo, sob impacto relevante da alta dos juros e restrições do mercado de crédito. Em julho de 2026, 83,9 milhões de consumidores estavam inadimplentes, recorde da série da Serasa Experian, iniciada em 2016, enquanto mais de 9,1 milhões de empresas tinham dívidas em atraso, outro recorde. A dívida bruta do governo, por sua vez, chegou a 82,5% do PIB em julho, influenciada pelo alto custo de financiamento da dívida.

O conjunto de dados mostra um país com problemas econômicos, mas nem de perto um cenário de quebradeira generalizada. Há empresas em dificuldade, endividamento elevado, informalidade e desafios de produtividade e competitividade. Ao mesmo tempo, há crescimento do PIB, abertura de novos negócios, investimentos, redução da pobreza, desemprego baixo e recordes de ocupação e de trabalhadores no setor privado. Para um debate de qualidade, especialmente em período eleitoral, é preciso ficar atento a alarmismos e fake news, que apenas confundem e prejudicam o enfrentamento dos reais desafios.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Samantha Maia

É jornalista e diretora de Comunicação do IREE

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