18 de setembro de 2025
Repetimos todos os dias que a internet é um campo de ódio e divisão, como se estivéssemos diante de uma verdade absoluta. É quase um consenso dizer que estamos polarizados, que ninguém se entende mais, que a democracia virou trincheira. Não tenho dúvidas de que essa atmosfera digital atravessa nossas vidas, sobretudo no plano emocional. Ficamos ansiosos, exaustos, irritados, com a sensação de que o mundo se tornou insuportável. Mas será que esse clima insustentável realmente se converte em ruptura concreta ou será apenas uma encenação que insiste em nos convencer de que já não somos capazes de conviver?
Na vida prática seguimos juntos. O chefe que pensa diferente continua sendo com quem dividimos a reunião da segunda-feira, o vizinho que votou no outro candidato continua segurando a porta do elevador, os amigos que discordam de nós ainda marcam um jantar e até nas famílias atravessadas por divergências a vida segue em aniversários e ceias de Natal. A convivência cotidiana permanece possível, até banal, e o abismo que nas redes parece intransponível se dissolve em pequenos gestos de vida comum.
Talvez seja esse o grande mal da sociedade capitalista ocidental, transformar diferenças em muros, alimentar a competição, fazer da vida uma disputa incessante entre vencedores e derrotados. Essa lógica da fragmentação nos atravessa até quando não percebemos, como se fosse natural acreditar que estamos sozinhos. O contraste aparece quando pensamos em tradições mais coletivas, como a que vemos na China (como disse no meu último texto), onde a sobrevivência sempre foi pensada em termos de comunidade, de continuidade histórica, de pertencimento. Enquanto no Ocidente insistimos no mito do indivíduo autossuficiente, lá se preserva a ideia de que ninguém se sustenta isolado.
A psicanálise talvez nos ajude a entender o que acontece. O que não conseguimos elaborar na convivência, recalcamos, e o recalcado retorna de outro jeito. É isso o que transborda nas redes, onde a raiva, a frustração e o medo que não cabem diante do vizinho, do colega ou do amigo se transformam em palavras duras, em desabafos desmedidos, em performances exageradas. Não falamos exatamente ao outro, mas a nós mesmos, reafirmando convicções, dramatizando ressentimentos, criando identidades que só existem na tela.
E é claro que essa catarse interessa a muitos. Interessa às plataformas que lucram com engajamento, aos políticos que dependem do ressentimento, ao próprio capitalismo que se alimenta da fragmentação. Quanto mais acreditamos que estamos irremediavelmente separados, mais frágeis ficamos, e mais fácil se torna moldar a nossa percepção.
Mas a verdade é outra. A mentira funcional do nosso tempo é acreditar que a coletividade se perdeu para sempre, que não há mais ponte possível, quando na vida real seguimos capazes de estar juntos, mesmo em desacordo. E mais, a própria sobrevivência da humanidade depende disso. Nenhuma espécie se sustenta isolada, a vida só se perpetua em comunidade, e a história prova que avançamos não porque competimos, mas porque cooperamos.
O perigo está em confundir o barulho das telas com a textura da vida e em deixar que a ilusão digital se imponha sobre o real. É preciso lembrar que ainda sabemos nos encontrar, ainda sabemos compartilhar, ainda sabemos ser um coletivo. E talvez essa seja não apenas a última esperança, mas também a maior arma contra a mentira da divisão que o capitalismo insiste em vender como destino inevitável.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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