O Aquecimento, o Nobel do Jacaré e o Grampo – IREE

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O Aquecimento, o Nobel do Jacaré e o Grampo

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Estive em Nova Iorque alguns meses depois do 11 de Setembro. No entorno de onde um dia houve as torres ainda havia poeira, MUITA poeira, incrustada nos prédios, nas janelas, além do chão repleto de buraquinhos. Uma tragédia deixa marcas.
Alguns meses depois da maior tragédia de nossa história – o governo Bolsonaro – ainda vemos resquícios dela por aí. É instituição depredada, vacina sobrando, e uma burrice incrustada que, parece, não vai sair mais.

-A senhora esteve no palácio do Planalto dia 8 de janeiro?
-Não senhor.
-Mas seu material genético foi encontrado lá!
-Eu sabia que não devia ter tomado a vacina! Roubaram meu DNA! Devolve! Devolve!

Sem dúvida, o maior legado deste período de trevas – que, cuidado, não acabou! – é a burrice. Os pessoais andam exagerando… O desmatamento acelerado, responsabilidade do agro ogro, acelera o aquecimento. Soma-se a isso o querido El Niño, e o resultado é esse calor infernal. No Amazonas, onde metade do ano chove todo dia e na outra metade chove o dia todo, tem uma seca fenomenal. No sul, chuva torrencial. Um amigo, no interior, jura que ouviu um ruralista dizendo: se esquentar, a gente liga o ar condicionado! O filho intelectual de Bolsonaro, o sempiterno Carluxo, há tempos questionou nas redes o aquecimento, num dia especialmente frio:

“Quando está quente a culpa é sempre do possível aquecimento global; e quando está frio fora do normal, como é que chama?”
Note-se que a pontuação é do autor aqui; o original é um pouco mais tosco.

Moro num bairro muito arborizado, mas cada vez menos. A cada temporal, caem duas ou três árvores – que nunca são replantadas. E caem por um motivo interessante: há anos não são podadas. Ou melhor, são quando ameaçam a fiação da rua. Mas só podam de um lado. Resultado: árvores centenárias muito altas, com copa apenas de um lado. As leis da física, apesar das tentativas do governo anterior, não foram revogadas. Então, quando sacode muito, elas caem.

-Ora, direis, uma arvorezinha só não faz verão!

Uma, não; uma por semana, em diversos bairros, sim. Mas não adianta reclamar: os canais competentes são incompetentes. Não ligam a mínima. E vai esquentando.

Mas o governo faz sua parte: autorizou a extração de petróleo na foz do Amazonas.

Reclamar do governo é função da imprensa. Como dizia Millôr, “Imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. Mas vivemos tempos complicados, o país foi destruído, precisamos ter mais cuidado e mais paciência. A não ser, claro, quando a bobagem for grande. Mas no cotidiano a imprensa vem mostrando como fez o bolsonarismo crescer: há uma lupa sobre as pequenas coisas negativas que saem do governo, especialmente de Lula e Janja; as coisas boas são relegadas às metafóricas páginas internas dos noticiários. Se Lula ganhasse o Nobel o noticiário iria ironizar ele não falar sueco.

Falando em Nobel, os criadores da vacina que iria alterar nosso DNA nos tornando em jacarés acabam de ganhá-lo. Salvaram milhões de vidas, provavelmente incluindo a minha a e a sua, que me lê agora.

Encerro estas bem-traçadas falando de meu herói, Moro. Sua ascensão e queda meteóricas fazem um belo contraponto a seu maior alvo, Lula: este subiu, desceu e subiu de uma forma nunca antes vista. Reinaldo Azevedo advoga (ele não é advogado, é um rábula; então eu digo o quê? Que ele rabula?) que é a maior superação da história do Brasil. Já Moro, do ostracismo de juiz medíocre passou aos holofotes da direita raivosa e não teve a sorte de voltar ao ostracismo: está destinado a permanecer sob o sol. Quadrado.

É acusado agora de chantagear uma testemunha para que se torne um espião, no melhor estilo filme policial. Mas isso significa o quê? Que quando alguém ponderar que Lula teve sua pena confirmada por outras instâncias os juízes podiam estar sendo chantageados?

-Mas, Moro, não tem nenhuma prova!

-Tem sim, ouve aqui:

-Mas, pera, é a MINHA voz!

-Eu disse que tinha prova, não que era contra o Lula…



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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