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O ano em que o debate ambiental foi abraçado pela elite econômica

Samantha Maia
Gerente de Comunicação do IREE



O alerta sobre os impactos da mudança climática no mundo ganhou um destaque inédito na 50ª edição do Fórum Econômico Mundial, realizada dos dias 21 a 24 de janeiro de 2020, em Davos.

Como apontado no Relatório Global de Riscos 2020, foi a primeira vez em 10 anos de pesquisa em que os cinco principais riscos globais elencados pelo público são todos ambientais. 

Os riscos mais alarmantes, segundo o relatório, são eventos climáticos extremos, falha na mitigação e adaptação às mudanças climática por governos e empresas, desastres ambientais causados pelo homem, perda de biodiversidade e colapso do ecossistema, e desastres naturais graves. 

A gravidade dos incêndios recentes na Austrália, na Califórnia e na Amazônia contribuiu para aumentar o tom de preocupação de investidores e empresários com o clima. 

Como apontou o economista José Roberto Mendonça de Barros em sua coluna no Estadão, não se pode mais dizer que meio ambiente é objeto apenas de manifestações da esquerda ou de ONGs. “Os maiores líderes mundiais de negócios estão dizendo que a coisa é importante e urgente.”

O discurso em defesa do meio ambiente foi repaginado pela elite econômica mundial a partir da perspectiva dos impactos da mudança climática para os negócios. 

O cálculo é claro. Não destruir o planeta passa a ser um imperativo econômico. No relatório do fórum é estimado um custo de 1 trilhão de dólares para as 200 das maiores empresas do mundo caso não haja ação contra a crise climática.

Já em outubro de 2019, a preocupação com a crise do clima ganhou espaço relevante no encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), com debates sobre políticas fiscais para mitigar aquecimento global, sobre biodiversidade e sobre governança ambiental. 

Segundo a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, a mudança climática é uma categoria de risco que precisa ser central no trabalho dos bancos centrais. 

Em publicação recente, o Banco de Compensações Internacionais defendeu que a mudança climática é uma ameaça para a estabilidade das finanças globais. 

O posicionamento do Brasil na área ambiental

O Brasil, que já foi visto como uma das lideranças no combate ao aquecimento global, assumiu uma posição mais defensiva no debate sobre mudança climática no Fórum Econômico Mundial e preferiu se colocar ao lado dos que não admitem tanta urgência para a questão.

O destaque ao País ficou por conta de uma declaração dada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que associou pobreza com desmatamento: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer.”

Guedes relatou a jornalistas que sentiu receptividade dos executivos de multinacionais e de financistas em relação a sua gestão econômica, com a reforma da Previdência aprovada, outras reformas preparadas para aprovação, juro baixo e expectativa de crescimento de 2% do PIB.

Mas o recado dado por investidores em Davos é de que não dá mais para dissociar política econômica da ambiental.

Coube a Guedes tentar convencer o público do fórum de que a gestão Bolsonaro se importa com a preservação da Amazônia. Tarefa árdua depois de um ano de repercussões negativas para o governo diante do desmonte de órgãos responsáveis pelas políticas ambientais, de ataques a ONGs e de um discurso reiterado contra a preservação de áreas indígenas e de negação da ciência.



Por Samantha Maia



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