Números positivos na economia de um país em crise – IREE

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Números positivos na economia de um país em crise

10 de março de 2025

Samantha Maia

Samantha Maia
Diretora de Comunicação do IREE



A notícia de que o PIB cresceu 3,4% em 2024 se somou a outros números positivos na economia, como um nível recorde de emprego, o crescimento da renda, o aumento dos investimentos e do consumo das famílias. A sensação, no entanto, é de um país em crise, e o governo já sente o impacto sobre sua popularidade. O que explica esse clima?

A intensificação da alta dos preços dos alimentos em 2024 é parte importante dessa história. A inflação fechou o último ano em 4,83%, acima do limite da meta, de 4,5%, puxada principalmente pelo grupo Alimentação e Bebidas, que acumulou alta de 7,69% no período. O gasto com comida tem pesado cada vez mais no bolso da população, uma alta que se acumula desde os anos da pandemia, e que no ano passado foi causada principalmente por quebras de safras.

O movimento inflacionário influenciou o Banco Central a retomar, a partir de setembro, a elevação da taxa Selic, que está hoje em 13,25%. A desaceleração do PIB no último trimestre de 2024, com queda do consumo das famílias e menor avanço dos serviços parece já ser reflexo do combo de juros altos e inflação de alimentos.

A expectativa é de que os preços caiam como resultado de safras melhores no país neste ano. Alguns já estão caindo, como o do arroz e do feijão. Já o pacote de medidas lançado na semana passada pelo governo, que promete reduzir os preços de alimentos por meio da isenção de impostos de importação, incentivos à formação de estoques e ações regulatórias, pode ter efeito limitado sobre a inflação. Mas não deixa de ser uma ação na direção correta, e acaba servindo para mostrar que o governo não está de braços cruzados diante do problema. 

Outro elemento que contribui para o clima ruim é a crise de confiança sobre a situação fiscal do país, o que tem influenciado a alta do dólar, e o que, por sua vez, também tem impacto sobre a inflação. Apesar do governo ter se comprometido com um arcabouço fiscal que coloca limites sobre o aumento de gastos, e de ter cumprido a meta fiscal de 2024, com déficit primário de 0,09% do PIB, o crescimento da dívida pública preocupa investidores. 

Existe uma disputa, que é econômica e também política, sobre os destinos do orçamento público. De um lado o governo defende os gastos relacionados à agenda de inclusão social para o qual foi eleito, como a manutenção dos pisos de Saúde e Educação, e do outro, o mercado pressiona o Planalto a cortar mais despesas, o que asseguraria o pagamento da dívida pública a quem investiu nela, e a aumentar a taxa de poupança, o que elevaria a capacidade de investir. 

Não é interessante para o país quebrar a confiança de seus investidores, e é importante corrigir desequilíbrios como a alta da inflação que vem com o aquecimento da demanda, mas uma austeridade mal dosada também leva a uma maior concentração de renda e desacelera a economia. Em um país de grandes desigualdades, o debate econômico não pode perder de vista a necessidade premente de melhoria de vida de uma população e do combate à miséria. 

Com a alta de juros, que deve chegar a 14,5% este ano, e o desestímulo aos investimentos e ao consumo, a perspectiva é de que a economia brasileira perca fôlego em 2025. Já a projeção da inflação para este ano está em 5,68%, maior que a de 2024. Mesmo com uma melhoria nos preços dos alimentos, é difícil imaginar que esse cenário de menor crescimento possa melhorar o clima no país.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Samantha Maia

É jornalista e diretora de Comunicação do IREE

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