15 de outubro de 2025
O mercado de trabalho no Brasil está em um momento muito positivo. O desemprego, em 5,6%, é o menor em 13 anos, com recorde no número de pessoas ocupadas e destaque para empregados com carteira assinada no setor privado. A massa salarial também atingiu o maior patamar da série histórica, com R$ 352,6 bilhões, um aumento de 5,4% em um ano. Esses são os dados da Pnad Contínua, do IBGE, sobre o trimestre encerrado em agosto.
O cenário sugere uma melhoria no bolso dos brasileiros. Mas o sentimento é outro. Segundo a Pesquisa Quaest divulgada no último dia 8 de outubro, 42% das pessoas consideram que a economia do país piorou no último ano e 73% afirmam que o seu poder de compra hoje está menor. Como explicar essa dissonância entre os números do mercado de trabalho e a percepção da população?
Embora mais pessoas estejam trabalhando e a renda média tenha aumentado, estamos falando ainda de ganhos muito baixos e afetados pelo encarecimento de produtos e serviços. Se o padrão de vida não melhora o suficiente para atender as necessidades e os desejos das pessoas, é natural que a insatisfação com o trabalho e com a economia continue.
Vamos aos números. A mesma pesquisa mostra que 63% dos brasileiros percebem um aumento nos preços dos alimentos no último ano. De fato, a inflação de alimentos acumula alta de 6% nos últimos 12 meses, ainda que tenha caído 1,17% nos últimos quatro.
Pesquisa Datafolha de abril mostrava que a inflação levou 58% dos brasileiros a reduzir a quantidade de alimentos que costumam comprar, percentual que sobe para 67% entre os mais pobres. O levantamento revelou que 8 em cada 10 pessoas adotaram alguma mudança de hábito em resposta à inflação, como comer menos fora de casa, escolher marcas mais baratas e reduzir o consumo da bebida.
Já se olharmos para os ganhos, apesar da renda do trabalho bater recordes no Brasil, os patamares continuam baixos para muita gente. Segundo o IBGE, em 2024, o rendimento mensal real domiciliar per capita foi de R$ 2.020, enquanto a renda média dos 40% mais pobres era de apenas R$ 601, mostrando que boa parte da população ainda vive com recursos bastante limitados. Para ter uma referência, o preço médio da cesta básica no Brasil está em R$ 969,40. Esse é parte do retrato da brutal desigualdade de renda no país, que permanece elevada mesmo tendo atingido, em 2024, o menor nível da série histórica do IBGE.
Ainda assim, o crescimento da renda cria pressão inflacionária, à qual nossa política monetária tem respondido com aumento de juros, hoje em estratosféricos 15%, que tem por objetivo desaquecer a economia. Isso levanta questões importantes: como conciliar o combate à pobreza com o controle da inflação? Que sentido faz reduzir emprego e renda para manter preços mais baixos, se as pessoas continuarem a viver em condições precárias? Esse paradoxo revela a lógica cruel de um sistema estruturado na desigualdade, que não encontrará o caminho para o desenvolvimento econômico se não for capaz de enfrentar suas profundas chagas sociais.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Samantha Maia
É jornalista e diretora de Comunicação do IREE
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