Arte, política e a força da fabulação de Bozó Bacamarte – IREE

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Arte, política e a força da fabulação de Bozó Bacamarte

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



A fabulação e o sonho são partes do diálogo que a psicanálise estabelece com a arte, ao tomar a noção de delírio como um movimento disruptivo capaz de transformar a realidade. Aqui, o delírio é tomado como potência de vida que pode denunciar as tentativas de cerceamento subjetivo e abrir as portas da invenção. Nesta chave de leitura encontramos Bozó Bacamarte, artista nascido em Olinda, que afirma seu trabalho como uma espécie de encantamento e delírio poético forjado no encontro com as ruas, na observação do insólito no cotidiano, na captura do improvável e no mais subversivo dos gestos cravados no mundo. Seu pensamento sai dos trilhos que fixam a realidade, ensaiando modelos de mundo e fazendo convites para que reviremos o que está pronto, como potência propositiva e fabulatória.

O nome “Bozó” surgiu de um projeto que conjugou seu desejo e os lugares de onde veio, fundamental ao condensar aquilo que forjou seu pensamento: hip hop, grafite, literatura de cordel, xilogravura, cultura de rua. O sobrenome nasceu da fricção das ruas e grupos folclóricos do Nordeste que usam uma arma – o bacamarte – para efetuar disparos de pólvora seca, grupos de brincantes que se apresentam em festejos produzindo estrondos e fumaça, zombando da ordem ao abrir frestas à uma nova constelação de forças desestabilizadoras que criam condições para que se inventem novas cartografias e paisagens.

Bozó começou a desenhar no final dos anos 90, influenciado por um amigo de escola que desenhava e grafitava. No grafite encontrou uma relação com a escrita e o desenho mais livre, em um lugar de certa impureza que acolhe a imperfeição para além de uma dimensão puramente realista. Pintando, desenhando e grafitando, passou a observar, no caminho para a escola, uma linguagem própria das ruas que se apresentava nos muros. Escrevendo letras nesses muros, encaminhou-se para a expansão de sua escrita, nela incluindo figuras e personagens que, desde 2013, passaram a habitar as telas.

Nessa relação – entre os muros da cidade e a tela – Bozó promoveu uma distorção na representação, tratando de temáticas populares que explodem hierarquias e limites entre o profano e o sagrado. A grandeza de sua obra se funda na beleza do ínfimo cravado no cotidiano e em andanças pela cidade e, também, pelo interior do Nordeste. Seu trabalho preserva esse primeiro encantamento, operando a partir do assombro, da desnaturalização das coisas e de um ritmo próprio que nunca abandona a origem. O próprio artista diz que precisa sempre retornar para a rua e aos muros para sentir a temperatura e o tom do seu trabalho.

As figuras são extraídas dos festejos populares e se desdobram em experiências diversas, sinalizando o interesse por questões que abrigam relações entre humanos, animais e outros objetos e presenças. A cartela cromática de colorido próprio abriga o absurdo e delirante do cotidiano, interrogando a delimitação que o cânone impôs ao território da arte, ao dela excluir essa dimensão brincante, poética, popular, em que a ordem das coisas não se dá por hierarquia, mas em uma espécie de zona borrada de inquietante estranheza que abriga uma dimensão fantasmagórica e profundamente humana, ao abrir a possibilidade de formas híbridas de existência e modos diversos de vida, abrigando uma dimensão do acontecimento que surge nas entranhas do mundo.

Personagens anárquicas formam um inventário infinito e inacabado que se prolifera nas fronteiras do absurdo, realocando aspectos da cultura sob novos prismas, articulando o dentro e o fora, o dito e o não-dito e, mesmo, o indizível. Os desenhos – feitos sem esboço prévio – são repletos de texturas e espessuras próprias, oriundas da relação com o grafite e os muros, agora transmutados para a tela, lugar da experimentação máxima, em uma atividade febril de conexões e  que se agitam em universos variáveis e em pura vertigem. O artista revela a força de sua relação com as imagens: “Diante do cavalete me sinto como se estivesse sonhando, vou despejando ali uma relação que sempre esteve presente em minha vida e meu cotidiano através dos folguedos como o cavalo-marinho, o maracatu, os caboclinhos, a relação com o movimento armorial, mas também o atravessamento pelo terreiro de Jurema. Sinto fluir na tela algo da origem desse mundo que envolve isso tudo: o coco, as cirandas, a música, a cultura de rua”.

A relação de Bozó com o desenho é estruturante e parte de uma presença inquieta das coisas que se proliferam às margens do empuxo capitalista e sobrevivem de forma múltipla, plural, nômade e delirante. Seu gesto de artista está ancorado na observação dos ritmos diversos que vibram e ecoam em tudo, nos fragmentos e minúcias de um mundo em constante deslocamento, abrigando o tremor e capturando o absurdo, o sagrado e o imponderável da existência. Seus desenhos abrigam narrativas mitológicas, épicas e cosmogonias próprias ligadas ao campo do lirismo popular e religioso. Sua ligação com os terreiros de Jurema preserva muito da cultura afro-índigena e cria solo para que as paisagens surjam como emissárias de outro mundo, paradoxalmente impregnadas da realidade cotidiana e das ruas.

No contato com o movimento armorial e, sobretudo, com Gilvan Samico, artista recifense, Bozó encontra a possibilidade de encantamento e uma cosmologia, um inventário que escapa a qualquer classificação: um chão e um céu de onde os animais nos espreitam – distantes e próximos, fascinantes e assombrosos – animados pelo traço singular e pela cor e no flerte com aquilo que escapa aos sentidos domesticados. Bozó busca essa relação de ancestralidade, construindo uma ficção erigida a partir de um imaginário que inclui elementos dessa poética que podem refundar a relação com o mundo, misturando tempos e formas. A matéria das coisas é revirada por dentro e daí se extrai o cristal do seu trabalho, que irrompe sob formas discordantes – ruína e salvação, escândalo e sutileza – como um assombro ou um poema que, ao sonhar com as ruínas do mundo, inventa outra cartografia.

Na polifonia de suas telas encontramos não um ponto de repouso, mas de um tremor que recoloca e redesenha as inquietações e as narrativas sobre o Brasil. Seu trabalho também deriva de muitas outras coisas que despertam seus sentidos e abrem as possibilidades do diverso, delirante, plural e múltiplo. O inventário infinito e inacabado do artista é feito de um mergulho na pura vertigem, flertando com o absurdo e o fantástico em um belíssimo compêndio que desafia os limites da razão. Atraído pela estranheza, Bozó revira a domesticidade das imagens e salta à outra margem, extraindo daí um saber possível, elaborando o que excede, realocando aspectos da cultura sob novos prismas, invocando uma abertura que vivem em suas figuras, personagens e grafismos. A criação do artista se prolifera nas margens e fronteiras da imagem e da língua. E daí surge um firmamento atravessado pelo delírio e pela invenção, com seres híbridos, criaturas grotescas e referências de imagens ligadas ao cotidiano e à cultura popular.

Lina Bo Bardi foi fundamental na luta para dissolver a dicotomia entre erudito e popular, ao pensar a questão da formação da cultura brasileira, que se constrói a partir de diálogos e negociações entre a imensa diversidade que é o país. Na construção do sentido de forma não hierárquica, Lina coloca tudo no mesmo patamar, de uma escultura de Aleijadinho a um ferro de santeiro de José Adário, de uma carranca de Mestre Guarany a uma pintura de Djanira. Lina foi uma defensora da liberdade da experimentação, da abertura ao espontâneo – o cerne do trabalho de Bozó Bacamarte, que condensa a pluralidade de linguagens como um caleidoscópio ao avesso do tempo linearizado. Seu sincretismo passa pela gestualidade e expressão como grafiteiro, pelas questões de sua origem, narrativas populares, inspirações gráficas e a xilogravura.

Bozó rasga o guia para construir seu mapa, afirmar uma posição singular, subverter caminhos exaustivamente indicados, abrir brechas para a deriva, inverter lógicas de funcionamento, recuperar uma dimensão da incerteza e da imaginação com traços e aparições que condensam o sobrenatural e o mágico, sustentando um hibridismo de linguagens de fineza rara. O artista relata que, em visita à casa de uma tia, algo mágico irrompeu: figuras enigmáticas e muito distintas das imagens da religiosidade comparecem. No início de forma monocromática, foram ganhando cores diversas ao longo dos anos e se misturando às paisagens agrestes em um hibridismo com seres e paisagens insólitas, através de uma iconografia que brinca com o sincretismo e as narrativas populares. 

O universo onírico, encantado e selvagem, a beleza e o fascínio do circo e dos festejos: cada fantasma e presença/ausência se transmuta em outra narrativa, no atravessamento e deslocamento de fronteiras e limites, em porosidade, num borrar de linhas e numa operação surpreendente como um emaranhado de rastros, montagens e justaposições improváveis por meio de aproximações nem sempre usuais.

Há cidades imaginadas, fabulações, sobrevivências, tempos e camadas que desafiam políticas e fronteiras, ultrapassando os comportados limites dos ordenamentos prontos. A presença artística de Bozó é irrequieta, selvagem e prenhe de uma fascinante desordem. O mundo fantástico de sua obra encarna sua própria existência e sensibilidade: “Absorvo tudo que é interessante: um vendedor na rua, uma placa colorida, algo inusitado, uma cena estranha ou prosaica do cotidiano. Vou em cidadezinhas afastadas do centro para ver os costumes, gosto de sentir as paisagens do agreste. Para  mim é até estranho explicar isso, pois isso é a minha vida e procuro viver nessa condição”.

Como em João Cabral de Melo Neto, em Bozó tudo se aproxima e flutua de forma poética: “A cidade é passada pelo rio / como uma rua é passada por um cachorro / uma fruta por uma espada”.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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