24 de novembro de 2025
No fundo, o medo sempre vence. O homem que passou anos debochando dos outros, imitando gente morrendo sufocada, rindo de quem lutava por ar, hoje dorme mal, soluça 24 horas, engasga com refluxo, fica entalado por minutos. O homem que dizia ter Deus no currículo agora teme o encontro. E teme porque sabe. Não existe oração capaz de anular o rastro de morte que deixou para trás.
É curioso observar como a vida devolve tudo com uma precisão quase matemática. Um ex-presidente que disse “e daí” diante de centenas de milhares de mortos agora vive com a certeza íntima de que Deus não vai dizer “e daí” pra ele. A fé que ele usava como escudo eleitoral virou espelho. E espelho não mente. Espelho, quando devolve o rosto verdadeiro, dói.
Talvez por isso o desespero. A cena patética do homem tentando queimar a própria tornozeleira não é só fuga. É súplica. É o gesto desesperado de quem quer escapar não da PF, mas do juízo final. Como todo “bom cristão” que acumulou atrocidades, ele sente o bafo quente de uma eternidade inconveniente batendo na nuca.
A verdade é que ninguém teme tanto o inferno quanto quem o construiu para os outros.
Durante a pandemia, ele zombou da morte com a tranquilidade dos covardes. Hoje, a morte devolve o olhar. O sufoco que ele imitava em lives virou ensaio biográfico: soluços, refluxos, noites engasgadas. Parece até que o corpo decidiu contar a história que ele tentou esconder. O corpo nunca mente. O corpo devolve.
E a gente, de longe, assiste a esse teatro da justiça divina com uma mistura esquisita de assombro e reconhecimento. Não é vingança. É física. É karma. É o universo organizando a conta.
No fundo, não existe crente mais fervoroso do que o culpado. Ele sabe que não vai pro céu. Sabe que as frases, as omissões, os deboches, as mortes — tudo isso está registrado no livro que realmente importa. E sabe que o perdão não é moeda de troca.
Talvez por isso ele soluça.
Talvez por isso ele queime tornozeleira.
Talvez por isso ele fuja até de si mesmo.
Porque a prisão que mais apavora não é a domiciliar. É a outra.
Aquela que não tem tornozeleira, não tem habeas corpus, não tem live para teatralizar. A prisão final. A sentença eterna. O encontro inevitável com aquilo que nenhum cristão de fachada consegue enganar: Deus.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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