30 de julho de 2025
Assisti recentemente à jornalista Milly Lacombe no programa Dando a Real, comandado por Leandro Demori, que tem se consolidado como um dos melhores entrevistadores do jornalismo brasileiro. A conversa inteira é imperdível, mas uma frase específica dela ficou martelando na minha cabeça desde então. Quando uma mulher erra, ela não erra sozinha. Ela erra pelo gênero.
Milly contava que, ao comentar futebol, qualquer deslize seu era tratado como confirmação de um preconceito coletivo. “Mulher não entende de futebol.” Sua falha não era apenas dela. Era da mulher como categoria. Era da mulher como incapaz.
Essa frase não saiu mais de mim. Talvez porque ela fale de futebol, que é também a minha paixão. Mas, acima de tudo, porque ela fala de algo muito maior.
Quando um homem erra, ele erra como indivíduo. “Aquele cara vacilou.” “Fulano é despreparado.” “Beltrano não sabe o que está fazendo.” Mas quando uma mulher erra, todo o seu gênero é colocado em dúvida. “Mulher é emocional.” “Mulher não serve para política.” “Mulher não sabe liderar.” “Mulher é confusa.” “Mulher não entende do assunto.”
Esse é o peso invisível que carregamos. Não somos avaliadas como pessoas, mas como representantes de uma categoria social que precisa, o tempo todo, provar que é capaz de ocupar determinados espaços. No futebol, na ciência, na política, na maternidade, no debate público. A mulher que se impõe é rotulada como agressiva. A que hesita é considerada fraca. A que lidera é chamada de mandona. E a que erra se torna a prova do fracasso de todas.
O erro da mulher vira argumento político.
E isso é profundamente violento.
Simone de Beauvoir já dizia que o homem é o neutro, enquanto a mulher é o outro. Ele representa a humanidade. Nós, uma variação questionável dela. O corpo masculino é tomado como universal. O nosso, como desvio. E quando a exceção tropeça, o tropeço vira regra.
Homens cometem erros grotescos diariamente. No futebol, na economia, na política, nos relacionamentos. E seguem ocupando seus espaços com autoridade intacta. Ninguém diz “homem não serve pra isso”. Porque o erro masculino é entendido como exceção. O da mulher, como essência.
E aí está a perversidade. A mulher precisa ser genial para ser aceita. E basta um tropeço para ser descartada.
É o que Angela Davis chama de violência estrutural do sistema. É o que Audre Lorde denuncia como a expectativa de que sejamos fortes o tempo todo. É o que bell hooks escancara ao mostrar como o patriarcado ensina a desconfiar da palavra das mulheres. E também da sua autoridade.
Quando uma mulher erra, ela paga em dobro. Paga pelo erro e pelo abalo que causa nas expectativas depositadas sobre ela. Porque, para nós, não existe o direito ao erro humano. Apenas a cobrança constante por uma perfeição que ninguém alcança.
Isso nos paralisa. Nos silencia. Nos adoece. Porque sabemos que não teremos o benefício da dúvida. Sabemos que seremos julgadas antes, durante e depois.
Por isso, ouvir Milly nomear esse processo com tanta clareza foi tão potente. Nomear é resistir. É tirar o erro da sombra da vergonha individual e colocá-lo sob a luz da crítica coletiva.
Porque errar é humano. Mas para as mulheres, ainda é um ato político.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
Leia também
A violência contra professores no Brasil
Continue lendo...
O que significa ser um Estado laico
Continue lendo...
A ONU e a crise do multilateralismo
Continue lendo...