Nem toda escolha precisa de um manifesto – IREE

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Nem toda escolha precisa de um manifesto

20 de julho de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Existe uma pergunta que tem me incomodado mais do que deveria.

Quando foi que passamos a dever explicações sobre tudo?

A inquietação surgiu por causa da Copa do Mundo, mas rapidamente percebi que ela não tinha nada a ver com futebol. Bastava abrir qualquer rede social para encontrar pessoas produzindo longos tratados explicando por que torciam para determinado país, por que jamais torceriam para outro, por que haviam decidido simplesmente não assistir aos jogos. Uma preferência esportiva, sozinha, já não bastava. Precisava vir acompanhada de uma justificativa ética, histórica, geopolítica.

Este parece ser um dos traços mais característicos da vida contemporânea. Já não basta escolher. É preciso explicar por que escolhemos e, mais do que isso, convencer os outros de que nossas escolhas fazem de nós pessoas moralmente aceitáveis ou pessoas moralmente melhores que as outras.

Tenho uma curiosidade quase compulsiva. Gosto de estudar política, filosofia, religião, economia, comportamento, futebol; acredito que compreender o mundo é uma das formas mais honestas de habitá-lo. O conhecimento nunca é apenas conhecimento; ele também distingue quem o possui, produz reconhecimento, estabelece pertencimentos. Sabemos que estudar também é uma forma de conquistar lugar no mundo, e é nisso que continuo acreditando, assim como continuo achando que poucas coisas são mais bonitas do que mudar de ideia diante de um argumento melhor ou descobrir que uma certeza era apenas uma hipótese mal examinada.

Porém, conhecimento e prestação de contas são coisas profundamente diferentes.

Em algum momento deixamos de ser uma sociedade que valorizava a curiosidade para nos tornarmos uma sociedade que exige que cada indivíduo seja o intérprete permanente de si mesmo. Compreender já não basta; precisamos explicar publicamente cada escolha, justificar cada preferência, transformar a própria opinião em prova de virtude.

Michel Foucault talvez ofereça uma das chaves mais interessantes para compreender esse fenômeno. Em História da Sexualidade, ele mostra como a tradição cristã transformou a confissão em um poderoso mecanismo de produção da verdade. Não bastava evitar o pecado, era preciso narrá-lo, descrevê-lo, explicá-lo, pois aí o sujeito era levado a produzir um discurso permanente sobre si mesmo. A verdade deixava de existir apenas nos atos e passava a existir também na obrigação de verbalizá-los, e o poder já não operava somente pela proibição, operava também pela exigência da fala.

 

Hoje, observando o que tem acontecido no mundo, acredito que nunca tenhamos abandonado completamente essa lógica. O confessionário não desapareceu, ele apenas perdeu as paredes e saiu da igreja, substituindo a figura do padre por uma plateia infinita e, agora, prestamos contas a uma audiência difusa e permanente, formada por seguidores, desconhecidos e algoritmos. Explicamos por que compramos determinado produto, por que votamos ou deixamos de votar, por que escolhemos esta profissão e não outra, por que terminamos um relacionamento, por que torcemos, ou deixamos de torcer, por um país durante uma Copa do Mundo.

Não compartilhamos apenas as escolhas, produzimos versões de nós mesmos em que cada decisão precisa ser defendida perante um tribunal invisível, e só assim ela se torna verdade.

A vida social sempre envolveu algum grau de representação; mostramos versões diferentes de nós mesmos dependendo do contexto, mas aqui a novidade é que a audiência nunca vai embora e a representação nunca termina. Cada opinião que damos passa a funcionar como um currículo moral permanentemente atualizado.

Assim perdemos, aos poucos, o nosso direito à opacidade, o direito de simplesmente não explicar, já que quem permanece em silêncio parece esconder alguma coisa, ou quem não se posiciona parece conivente. Quem escolhe guardar uma parte de si desperta mais suspeita do que respeito.

A internet não criou apenas uma sociedade de opiniões. Criou uma sociedade de justificativas performáticas.

Antigamente queríamos estar certos; hoje queremos, acima de tudo, parecer bons, e aí há uma diferença enorme. A busca pela verdade admite dúvida, revisão e até silêncio; já a busca pela virtude exige performance constante, resposta imediata e convicção inabalável. Uma opinião deixou de ser apenas uma opinião, passível de estar certa ou errada; ela passou a funcionar como certificado de caráter, e aqui vem o perigo: já não discutimos apenas ideias, julgamos pessoas por meio delas.

Vou continuar estudando coisas que talvez nunca tenham qualquer utilidade prática além da alegria de compreendê-las e continuarei acreditando que mudar de ideia é um dos maiores sinais de inteligência. Pois acredito que uma das formas mais discretas de liberdade que ainda nos restem seja justamente esta: escolher sem transformar cada escolha em manifesto, viver sem converter cada decisão em declaração pública, guardar para si aquilo que não precisa ser explicado. Nem toda preferência revela uma ideologia. Nem toda decisão exige um pronunciamento. Existe uma dignidade silenciosa em simplesmente viver antes de explicar por que se vive.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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