2 de junho de 2025
No último dia 1º de maio, nos despedimos de uma de nossas maiores vozes femininas atemporais da música brasileira: Nana Caymmi. Internada desde agosto do ano passado na Clínica São José, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, a artista vinha enfrentando as complicações por conta de uma arritmia cardíaca. Mesmo tendo alta da clínica, teve que retornar em cerca de duas semanas devido a dores no peito. Equilibrando momentos ruins e momentos de melhora, as complicações de sua má saúde acabaram levando a artista a sofrer uma “overdose de opioides” no dia 29 de abril, data de seu aniversário. E dois dias depois, viria a falecer.
Registrada com o nome de Dinahir Tostes Caymmi, é a primeira filha do consagrado cantor, compositor e violonista baiano Dorival Caymmi e da cantora Stella Maris. O privilegiado ambiente musical permitiu que a jovem Nana se desenvolvesse com naturalidade no acolhimento do lar fraterno. Pelo lado do pai, foi apresentada à música de Sarah Vaughan, Ravel, Debussy e Erik Satie, entre outros; já pelo lado da mãe, aprendeu o gosto pelo piano e pela voz de Isaura Garcia, influências que marcariam profundamente a maneira como interpretava e, a partir daí, tomava para si as canções.
Foi para Nana, ainda um bebê, que Dorival Caymmi compôs a música Acalanto. Junto à esposa Stella Maris, gravou, a pedido de Assis Chateaubriand, em 1943, a música que faria parte do encerramento diário da programação das rádios pertencentes aos “Diários Associados”, proprietários da antiga Rede Tupi. Isso fez com que a música e, consequentemente, a homenageada ficassem conhecidas por todo o Brasil. A canção ainda contou com arranjos de coro de Lucília Guimarães Villa Lobos, a primeira esposa do maestro.
Superando o preconceito contra mulheres que se dedicavam à vida artística, gravou em 1960 a música Acalanto no LP Eu não tenho onde morar, de Dorival Caymmi. Seis anos depois, iria superar uma onda de vaias quando subiu em palco para interpretar e vencer o I Festival Internacional da TV Globo com a música Saveiros, composição de seu irmão Dori Caymmi em parceria com Nelson Motta.
Seu futuro lhe renderia ótimos frutos. Ao lado de Ivan Lins, participou de apresentações aclamadíssimas nas noites cariocas do projeto “Seis e Meia” no palco do teatro João Caetano. No início dos anos 1980, gravaria do mesmo compositor a canção Mudança dos Ventos, se consolidando diante da crítica, e de parte do público que via em seu trabalho traços de elitismo, como uma das maiores cantoras e intérpretes da música brasileira de todos os tempos.
As notas mezzo-soprano e contralto de sua voz impregnavam as músicas de uma dramaticidade profunda, permitida pela tonalidade grave com a qual envolvia suas canções em um ambiente quase camerístico. Se dizendo uma pessoa muito romântica, cantava até o último fio de voz permitido pela respiração, buscando imprimir o tom de “sufoco” e “falta de ar” que a letra e a interpretação pediam. Com todo o direito, Nana se gabava de ter construído ao longo da carreira um repertório sem vacilações, cantando somente o que desejasse.
Sentia-se nos últimos anos deixada de lado por conta da formação de novos públicos e da música que era feita atualmente no Brasil. Em sua opinião, o público que conquistou com suas músicas estaria deixando de ir às apresentações devido à idade. Junto a isso, o declínio comercial das gravadoras e vinis teriam afastado a artista do mercado musical brasileiro atual. Quem ousará saber o que tempo ainda irá lhe reservar?
São também bastante conhecidas suas desavenças durante a carreira. Nos últimos anos, a interprete da voz imortal de Desenredo reapareceu nos meios de comunicação por conta de suas opiniões políticas que causaram furor no público que a acompanhou ao longo do tempo. Apoiando tendências políticas controversas e antidemocráticas em um momento de turbulenta transição eleitoral recente, Nana Caymmi, em entrevista, disse: “É injusto não dar a esse homem [Bolsonaro] um crédito de confiança… Só de tirar PMDB e PT já é uma garantia de que a vida vai melhorar. Agora vêm dizer que os militares vão tomar conta? Isso é conversa de comunista. Gil, Caetano, Chico Buarque. Tudo chupador de pau de Lula. Então, vão pro Paraná fazer companhia a ele. Eu não me importo.” Apesar do tom “desbocado”, nenhum dos amigos envolvidos na situação guardou qualquer mágoa da cantora.
A sua voz marcou para sempre canções como Beijo Partido, Acalanto, Resposta ao Tempo e até músicas menos conhecidas do grande público como a maravilhosa Café com Pão (Jodel). Para Leny Andrade (1943-2023), Nana era uma de suas cantoras prediletas, e a impressionava, como já mencionou em entrevista, o fogaréu de sentimentos colocados para fora em cada uma das interpretações da artista. Para o produtor musical e compositor Hermínio Bello de Carvalho, “existem cantoras e intérpretes, as primeiras cantam da boca pra fora, já as intérpretes são aquelas feito Billy Holiday, Isaurinha Garcia, que se afligem e nos passam a sensação de que uma dor de cabeça as persegue, que estão insones e prenhes de uma ansiedade quase assassina, acho apenas que o ato de cantar é esse, tal como Nana o exerce”.
Seu último trabalho é um álbum lançado em 2020 dedicado integralmente à música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Nana, Tom, Vinicius.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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