Na Serra do Cipó, a cosmologia do inclassificável de Gisele Camargo – IREE

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Na Serra do Cipó, a cosmologia do inclassificável de Gisele Camargo

30 de agosto de 2024

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



O conto “A construção” de Franz Kafka é um relato inacabado em primeira pessoa. O texto aborda um modo de existência em que personagens e cenário, entes animados e inanimados, são carregados de sentido. A linguagem onírica do conto tem o poder de tirar as coisas do lugar. E há a irrupção de um ruído, a grande marca temporal do texto, que instala um antes e depois. Da mesma forma, ao se mudar do Rio de Janeiro para a Serra do Cipó, em Minas Gerais, Gisele Camargo operou uma espécie de corte e redimensionamento em seu trabalho.

Neste lugar, ao se embrenhar pelo cerrado mineiro – com suas montanhas, erosões e presença singular, pedras, plantas e variados elementos naturais em constante mudança – a artista carioca teve contato com forças até então desconhecidas e descobriu uma aridez fértil e pulsante. Da mudança à decisão de lá habitar, construir casa e espaço de residência, nasceu a série “Construção” e uma derivação que adensa a dimensão do jogo, do acaso, da aleatoriedade: pinturas de pequena escala surgem de maneira orgânica, geometrias e arquiteturas próprias articulam arte e vida e a relação com o entorno inaugura uma nova iconografia.

Aquelas cores e densidade a convocaram a um projeto maior: a criação de um instituto que conjugue questões da arte a formas de pensar a paisagem, partindo de uma ética e um novo vocabulário pictórico, pela experiência vertiginosa da natureza que ensina outras dimensões da existência. O longo processo de criação desse espaço se fez também de uma nova relação com o tempo. O instituto, em fase final de construção, abrigará uma residência artística e diversas atividades, em diálogo com a comunidade local e modos de vida que repensem formas de partilha e presença no mundo. Lá já aconteceram diálogos e encontros vivos e pulsantes. Investigações com sensibilidades e poéticas distintas se juntaram a flores e frutos do cerrado, a camadas geológicas de um bioma denso e complexo, com sítios arqueológicos e quilombos atravessando e reinventando olhares.

“Tabuleiro” – nome de outra série de trabalhos da artista – é uma experiência de mundo que passa pela relação com a cor. Pequenos grupos amarelos e laranjas esboçam certa solaridade que atravessa a linguagem misteriosa e mais esmaecida de outros pequenos grupos do conjunto de trabalhos, que não possuem uma sequência cromática, mas alojam cores contrastantes em que a paleta se mistura em uma pintura viva que segue fazendo passagens discursivas ao longo do processo. Toda a paisagem ao redor é transmutada para elementos iconográficos que se configuram como peças de um jogo do qual só saberemos o resultado no final: no ato da montagem uma nova pintura irá se esboçar. Não há sequência prévia e todas as partes ou grupos de pintura são encarados como peças de um jogo.

O hibridismo  que povoa a obra de Gisele Camargo é sutil como a escrita de um poema. A mistura entre uma e outra pequena série de pinturas se dá de maneira porosa ao enigma. No conjunto ocorre uma espécie de irradiação: blocos cinzas são rapidamente inundados por cores acesas como num gesto epifânico que abriga, ao mesmo tempo, todos os astros, a pulsação da natureza através de plantas ou animais sob nova configuração, a incandescência do sol e a opacidade da noite. Elementos arquitetônicos se dissolvem e se integram à paisagem criada, num gesto de encaixe que abriga uma espécie de mística das passagens.

No interior da noite ou na solaridade, os limites se esvaem e cintilam resíduos da construção de um corpo, um espaço inventado, uma casa. São perspectivas fracionadas: em seu trabalho as coisas não se entregam inteiras ou sem certa ambivalência. Sua obra abriga a ideia de que o universo, em sua forma e impermanência, é uma obra de arte. Seu fazer é uma escrita que nomeia o incomensurável e a infinitude da vida. Nesse liame e movimentando-se em metamorfoses diversas, a artista sustenta, no espaço aberto da imanência, as vertigens da matéria, do corpo, dos objetos, dos fluxos.

É um jogo delicado que nunca se finda, um inventário de universos e de espécies que explodem, ramificam-se em uma catalogação infinita,  como se entre as passagens de um grupo e outro de pintura o mundo estivesse prestes a explodir gerando outra língua. Elementos hiperbólicos ou minimalistas, luminosos, solares, aéreos e flutuantes, sementes, máquinas, construções, verdes diversos da mata configurando a ideia de um caos polifônico de mundo e  desestabilizando os sentidos prontos.

Essas vias entrecruzadas inauguram um mundo, instalam o fulgor da revelação e rompem a ordem das coisas, como uma espiral silenciosa entre cores que – apaziguadas ou acesas – tocam a descoincidência da matéria, escapando às classificações e aos sentidos. No resgate de formas circulares ou arquitetônicas, entre densidades e espessuras, revela-se uma construção feita da própria fragilidade em que a linguagem é erigida. A potência poética desse jogo reside justamente nessa iminência de perda e transfiguração de qualquer destino predeterminado. Tudo está ali para lembrar do nascimento do mundo, como um sopro ou uma explosão que trazem uma inquebrantável paisagem que, ao mesmo tempo, persegue e ilumina.

No ensaio “A sabedoria da arte”, Roland Barthes reflete sobre a relação do artista com a obra que está concebendo e sugere que esta seja percebida como um “acontecimento”. Para ele há dois movimentos que sustentam a dimensão do acontecimento: o lançamento e a dispersão. No primeiro, o artista sabe a direção para onde quer conduzir seu trabalho; no segundo, aquilo que partiu de sua intenção toma um rumo inesperado, dando lugar à surpresa.

A conversa entre arte e política é indispensável e, no atual e preocupante cenário em que a discussão das questões ecológicas se torna cada vez mais urgente e necessária, o trabalho transdisciplinar de Gisele Camargo ganha importância e relevo, pois trata-se de pensar e agir política e agudamente.

A Serra do Cipó é um dos mais ricos complexos arqueológicos pré-coloniais de Minas Gerais, onde dezenas de sítios com painéis rupestres de diversas dimensões atestam que a ocupação humana na região data de mais de 10.000 anos. Por sua extensa biodversidade, o local foi chamado por Burle Marx de “Jardim do Brasil”. Localizada entre o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga, a Serra do Cipó funciona como um imenso corredor ecológico, um lugar de interseção entre grandes ecossistemas, uma área com imensa biodiversidade e ancestralidade muito presente. Neste lugar, Gisele instalou uma Residência Artística e está criando um Núcleo de Invenções, para pesquisas científicas sobre o contexto arqueológico e biológico do cerrado mineiro.

Como num poema de Herberto Helder, a artista escreve seu jogo, constrói seu lugar no mundo, erige uma morada: “A casa – segundo o que penso – é uma esponja. Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível. E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante. Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas”.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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