1 de setembro de 2025
Pensar o “Museu de Imagens do Inconsciente” a partir da produção artística que nasceu com o pensamento múltiplo e contra-hegemônico de Nise da Silveira e Mário Pedrosa – ambos leitores críticos e ativos de um momento em que se erigia o germe de uma revolução que passou a abordar a questão da loucura de maneira nova e subversiva – é se abrir para uma ideia de memória, linguagem e arquivo.
O museu, localizado no bairro do Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro, foi criado como um centro de estudo e pesquisa. Com ateliês terapêuticos, é aberto ao público em geral e recebe frequentadores que, no convívio com estudantes, pesquisadores ou visitantes, criam e compartilham suas experiências.
Em uma época em que eletrochoques e lobotomia imperavam, a médica brasileira Nise da Silveira (1905-1999) revolucionou o tratamento psiquiátrico no país. Com o ativista e crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981) fez do binômio arte-política um trabalho ético que destacou a produção de artistas e grupos marginalizados fora do cânone, reinventando a história da arte.
Em “Arquivida”, Jean-Luc Nancy assinala a dimensão intempestiva da história ao delinear a potência daquilo que não se adequa às pretensões de uma época, tornando-se, portanto, inatual. Assim é a revolução sustentada por Nise da Silveira. Na contramão do conformismo e da obediência, aliada ao pensamento plural e heterodoxo de Mário Pedrosa no território do Engenho de Dentro, repensou a atuação da psiquiatria.
Mirando a pulsação do pensamento de Nise da Silveira, a relação de Mário Pedrosa com os pacientes do hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e com o desejo atento de “destruição das certezas”, proponho esta mirada ensaística que olhe a outro destino e ajude a construir uma experiência de memória e resistência.
Propõe-se aqui que os “arquivos de vida” ou “arquivos da loucura” – assim chamados e franqueados pela psiquiatria da época, como maneira de enquadrar e reduzir a existência da alteridade e de sujeitos desviantes – sejam renomeados como “arquivos do delírio”. Nesta abertura de experiência, podemos propor uma reconfiguração dos arquivos e encontrar uma ideia que também restabeleça o campo do comum, problematizando a razão e o sentido como direção única de uma comunidade.
Mário Pedrosa se debruçou sobre os pacientes de Engenho de Dentro, por perceber que algo ali era mais da ordem da enunciação do que um dizer de si. Ali havia também um sentido de coletividade. Ao perscrutar algo além dos “caminhos da loucura”, Pedrosa preserva o grão de mistério que advém daí e segue na trilha do pensamento lacaniano que sustenta que somente se pode falar da loucura de dentro dela. Impossível não evocar aqui a figura de Flávio de Carvalho, um dos primeiros leitores de Freud no Brasil. No ensaio “Flávio de Carvalho: arqueologia e contemporaneidade”, Verônica Stigger salienta que, para o citado artista, nas “ruínas” ou “ossos do mundo”, nesses “resíduos abandonados pelo homem e não destruídos”, o mundo se converte numa espécie de “coleção de coleções” que devem ser trazidas à tona e investigadas.
Pedrosa reinventou o mundo e o olhar para arte. Seus textos críticos compreendem um arco temporal longo, entre os anos 1933 e 1981. Em “Arte, necessidade vital”, de 1947, ele sublinha a força da descoberta do inconsciente ao lado do reconhecimento da “arte primitiva”, termo que hoje tem outra abordagem crítica. Seu pensamento revolucionário, junto à tensão com a psicanálise aqui proposta, pode ajudar a repensar a ideia, profundamente eurocêntrica, de uma arte dos povos ditos primitivos. Cabe aqui, portanto, problematizar a ideia de “arte bruta” ou “arte primitiva”, pois o delírio diz respeito a todos nós. Seria, então, um gesto político à altura do pensamento de Mário Pedrosa recusar delimitar ou encarcerar o que seria chamado de “produção dos loucos”.
Com relação às expressões plásticas dos pacientes de Engenho de Dentro, em “Pintores de arte virgem” Mário Pedrosa abordou o conceito de forma largamente aparentada às ideias de Jean Dubuffet, isto é, uma arte que não leva em conta as convenções acadêmicas estabelecidas. A expressão “arte bruta” foi concebida em 1947 por Dubuffet, assim qualificando artisticamente, pela primeira vez, do ponto de vista da crítica, as criações dos artistas psiquiatrizados. Contudo, para Pedrosa não é um transtorno ou a interpretação do drama psíquico vivido pelo artista que irá dizer se estamos ou não diante de uma obra de arte pois, antes de mais nada, não está claro – nem nunca estará – o que se quer dizer com “loucura”. Além do mais, a arte transcende, ou melhor, ignora a diferença entre as frágeis fronteiras entre sanidade e loucura, assim como ignora a diferença entre primitivos e modernos. Por isso é preciso problematizar a própria ideia de arte bruta, a partir de referências que levem em conta o longo percurso e a reinvenção crítica de Pedrosa, assim como autores contemporâneos que recolocam a questão sob outras perspectivas. Importante destacar o aspecto social de seu olhar e atuação: para Pedrosa, é a obra de arte que vive subjetivamente. Se em algum momento o crítico investigou ideias como “arte bruta”, “arte virgem” ou “arte primitiva”, é ele mesmo quem revira sua posição apostando num fazer que destrói e reconstrói perspectivas, apostando no ensaísmo como modo de pensar e estar no mundo.
Abordo aqui a relação havida entre Mário Pedrosa e os pacientes-artistas de Nise da Silveira para assinalar algo da alteridade, que pode ajudar a pensar a questão do sujeito e do objeto de maneira mais ampla e próxima da psicanálise e, também, da memória social. Na articulação com o pensamento psicanalítico que tem origem na ideia freudiana de delírio, encontramos aquilo que pode se contrapor a uma patologização, buscando encontrar no delírio algo da estrutura do sujeito. Nesse sentido, a própria linguagem seria delirante, na medida em que é regida por um campo movediço entre sujeito e objeto, entre a habitação do corpo e da língua, e a pura estrangeiridade. Trata-se aqui de resgatar a memória de um trabalho vivo e pulsante e que recoloca uma série de questões importantes de serem vistas e revistas sob a lógica da inclusão da alteridade.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
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