Museu Afro Brasil: A lembrança como uma arte de esquecer – IREE

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Museu Afro Brasil: A lembrança como uma arte de esquecer

2 de julho de 2024

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Por anos a perder-se no tempo, muito daquilo que foi chamado de arte, não levou em consideração o seu impacto por vezes nefasto sobre a cabeça e o imaginário de todo um povo. Museus no Brasil e pelo restante do mundo exibiam algemas, gargalheiras, correntes, máscaras de flandres como forma de educar a sensibilidade do público em respeito àquilo que deveria ser considerado como o “belo”. Em outras palavras, uma pintura como “Oke Oxossi (1970)“ de Abdias do Nascimento, teria o mesmo valor artístico que um chicote ou um açoite dos tempos da escravidão.

Quando são abertas as portas para uma nova exposição, muitas vezes vislumbramos a oportunidade de entrar em contato com expressões que o nosso próprio tempo ainda não compreendeu como arte, o que dá a um museu aquela característica de ser casa de vanguardas. Berço daquilo que se intenciona preservar no tempo, um acervo pode ser a reconstrução ou a ruína da imagem que um povo venha a fazer de si mesmo. E por muito tempo, optando conservar instrumentos de tortura como objetos de arte, nossos museus afastaram sistematicamente pessoas negras desses espaços, tão emocionalmente saturadas se encontravam em relação àquilo que não mais aguentavam ver.

Foi na intenção de suprir essa lacuna enorme na nossa imagem de Brasil, que o artista plástico de Santo Amaro da Purificação, Bahia, Emanoel Araújo (1940-2022), a partir de seu acervo pessoal de obras de arte, inaugurou em 20 de Novembro de 2004, o Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, tornando-se seu diretor, curador e principal artista residente. Hoje, a localização do espaço fica no antigo Palácio das Nações, e antiga extensão de outro importante Museu da cidade: a Pinacoteca de São Paulo.

Emanoel Araújo, gravurista de formação pela Escola de Belas Artes da Bahia, ainda nos anos 60 daria início a uma carreira repleta de premiações no Brasil e no exterior. Sua participação na “ll Exposição Jovem Gravura Nacional (1966)”, do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, lhe rendeu seu primeiro prêmio e a atenção do mundo artístico em um tempo onde era quase nula a participação de pessoas negras em ambientes dedicados às artes plásticas: antes de fundar um Museu, fundaria também o seu próprio caminho.

Foi diretor do Museu de Arte da Bahia, sua terra natal, durante os anos de 1981 até 1983. Nessa experiência, ele iria adquirir a bagagem necessária para projetar um sonho que seria realizado cerca de um pouco mais de 20 anos depois, na cidade de São Paulo: o Museu Afro Brasil Emanoel Araújo. O artista plástico faleceu em 2022 aos 81 anos de idade, sendo mais de 60 deles dedicados à arte. Deixou-nos um legado imensurável como provedor e mantenedor de cultura, de memória, de criação e formação de novos artistas brasileiros.

Com um acervo que soma mais de 8 mil obras de arte, o Museu Afro Brasil, através do trabalho de diversos artistas negros e negras da diáspora africana, reposicionou toda uma nova imagem de mundo nas cabeças que aprenderam a pensar segundo filosofias de escolas europeias e padrões ultrapassados de apreciação do fazer artístico: obras como Passarinho (2013), do guarulhense Flávio Cerqueira ou os impressionantes Recortes em metal (1970) feitos pelo haitiano Gabriel Bien Aimé, mostram porque os olhos do mundo estão mirados nas artes plásticas das periferias negras globais: habituadas a viver sob as mais diversas formas de instabilidade, artistas de todos os países da diáspora africana conseguem extrair da própria fragilidade de suas terras, a matéria prima para a criação artística mais viva em diálogo com o passado e entusiasmo com os tempos atuais.

Ao conceber o Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo estava lidando diretamente com a contradição de um país que, por constrangimento de assumir antigos erros que se perpetuam até hoje na esfera social, política, econômica e cultural, optou pelo apagamento gradual de suas raízes, escrevendo em linhas pequenas na última página da sua história, ainda sob os vieses eurocêntricos de entendimento do que é arte, as contribuições artísticas negras e indígenas na formação da nação brasileira. Agora, as obras de artistas brasileiros e dos mais variados países da diáspora africana contam essa história novamente, compondo um quadro mais completo do que possa ser esse nosso Brasil.

Contribuindo nessa nova escrita do futuro, existe preservada no interior do Museu, a biblioteca Carolina Maria de Jesus. Contando com cerca de 15.000 itens, seu acervo oferece ao público livros, teses acadêmicas, fotografias e um vasto material multimídia com conteúdo voltado ao conhecimento das culturas que compuseram os países da diáspora.

Hoje, o antropólogo, curador e novo diretor artístico do Museu Afro Brasil, Hélio Menezes, buscando promover a abertura de suas portas para a maior parte da sociedade, retirou das vistas do público todos os instrumentos de tortura outrora entendidos como objetos de arte. Com essa atitude, ele encerrou décadas de um certo mal estar  de “passado revivido” que pairava no ar, da presença silenciosa de um “senhor” em cada objeto de humilhação da pessoa negra na escravidão. Assim vem alimentando a possibilidade de vivenciarmos o maior Museu de arte negra da América Latina, tingir-se cada um dos seus espaços de gente negra.



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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