24 de setembro de 2025
Não é de hoje que ao andar por São Paulo, especialmente na Zona Leste, percebo o avanço maciço da verticalização. A novidade, talvez, seja a quantidade de condomínios-clube. A cada esquina, casas, restaurantes e estabelecimentos comerciais tradicionais dão lugar a empreendimentos que concentram serviços e lazer atrás de muros.
Se na teoria a verticalização poderia democratizar o acesso à moradia em grandes centros urbanos, na prática, ela tem reforçado a segregação. O que mais se vê são torres que se erguem como fortalezas, com grades e guaritas, que isolam moradores e esvaziam o espaço público, símbolos de uma arquitetura securitária que transforma o medo em concreto.
Enquanto alguns desfrutam dessas “cidades privadas”, com áreas verdes, piscinas, academias, mercados e quadras esportivas, muitos permanecem privados de segurança e de lazer público de qualidade. O que isso revela sobre nossa cidade?
Como a urbanista Raquel Rolnik lembra em sua aula para o curso “Soluções para o Brasil”, do KOPE, a verticalização guiada unicamente pelo mercado imobiliário não gera inclusão, mas sim exclusão. Esses prédios de médio e alto padrão, cercados por muros e repletos de serviços internos, expulsam moradores antigos, encarecem o entorno e aprofundam as desigualdades.
É um modelo que une o complexo imobiliário ao complexo da segurança, transformando moradia em ativo financeiro e lazer em mercadoria. Embora o Plano Diretor preveja fachadas ativas para revitalizar bairros, promover uso misto e qualificar a vida urbana, muitas regiões não são contempladas por essa regulamentação e continuam a conviver com construções que separam o espaço público do privado, reforçando a sensação de insegurança e medo.
Essa segregação socioespacial, aliada à omissão do poder público, é produtora ativa de desigualdade. Nas periferias, o acesso à infraestrutura, lazer e serviços públicos é sempre mais precário. É por isso que esses condomínios se tornam o sonho de consumo de tanta gente. Afinal, quem tem recursos vive a um elevador de distância de tudo; quem não tem, precisa, muitas vezes, se deslocar longas distâncias para encontrar áreas públicas, quase sempre escassas ou mal conservadas.
Na Vila Ema, por exemplo, há um terreno de quase 17 mil metros quadrados, com bosque nativo, fauna, nascentes e espécies ameaçadas de extinção, que está previsto como parque público há mais de uma década, mas permanece fechado. Apesar de moradores se mobilizarem para garantir o acesso, a área continua inacessível, mostrando que, mesmo quando existem espaços destinados ao lazer, eles podem ficar fora do alcance da população.
O direito ao lazer, à natureza e à convivência deveria ser universal. E isso só será possível se seguirmos uma lógica urbanística que expresse os desejos e necessidades da comunidade, construindo uma cidade não de muros e privilégios, mas de encontros e cidadania.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Gabriela Farias
Gerente de Mídias Sociais
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