28 de abril de 2026
Em 2005, José Murilo de Carvalho escreveu um artigo intitulado “O pecado original da República”. Após analisar todos os períodos republicanos, chegou a uma conclusão que explicita qual teria sido esse “pecado”: “A ausência do povo, eis o pecado original da República. Esse pecado deixou marcas profundas na vida política do país. Quando, em meio à crise de nossos dias, assistimos ao aumento da descrença nos partidos, no Congresso, nos políticos, de que se trata, senão da incapacidade que demonstra, até hoje, a República de produzir um governo representativo de seus cidadãos?” (p. 18).
O questionamento do historiador cabe perfeitamente na atualidade, apesar de ter sido feito vinte e um anos antes. Mas também caberia há cem anos ou mesmo poderia ser aplicado a tantas outras nações. A ideia de República, que, grosso modo, significa “coisa pública”, talvez nunca seja completamente alcançada.
A representação política tem seus limites, assim como a democracia participativa. Não se trata de uma ingenuidade que busca acreditar em um governo plenamente representativo ou em uma sociedade ideal, mas tampouco de crer que, diante de tantos problemas, nada precise ser feito, como se o sistema político fosse, por excelência, imperfeito.
Nos últimos vinte anos, o Brasil passou por muitos avanços em diversas áreas, e talvez um dos mais significativos tenha sido a retirada do país do Mapa da Fome, fruto de políticas públicas e de vontade política em oferecer o mínimo de dignidade aos cidadãos. Literalmente, garantiu-se o básico a milhões de brasileiros — e levamos anos para que esse básico fosse possível.
Houve avanços, e eles também se deram por meio da política; por isso, demonizá-la é sempre um grande equívoco. Por outro lado, não é possível afirmar que haja satisfação com a classe política, ainda que, em tese, ela seja eleita pela maioria.
Ao que parece, não se trata de amar ou odiar a classe política, colocando-a em uma vala comum de extremos, nem de acreditar que ela seja homogênea. Mas, o incômodo é legítimo diante da realidade atual. Ao ler o noticiário, acompanhar as discussões no Congresso ou mesmo nos estados e municípios, percebe-se a precariedade do discurso político, o uso das redes sociais como palanque e a corrida por pautas vazias, que geram discussões acaloradas, mas que em nada afetam a vida da maioria dos cidadãos.
Discute-se o nada sobre coisa alguma. Por outro lado, avolumam-se os grandes escândalos nacionais, que corroem a já escassa crença popular na política.
Enquanto isso, o verdadeiro Brasil perece. Esquecemos de discutir política de fato — aquela que vai além de interesses familiares ou de pautas vazias. Esquecemos de discutir a política que afeta a vida das pessoas reais no Brasil real, fora das redes sociais.
Mais do que isso, atrofiamos nossa capacidade de discutir um projeto nacional — um projeto de nação que busque pensar e traçar um plano para a próxima década e para o próximo século, para nossos filhos e netos. Esquecemos, em verdade, o que significa ter políticos republicanos, verdadeiramente interessados na tal “coisa pública”.
Não quero ser mal interpretada: não demonizo a política e reconheço sua enorme importância. No entanto, cabe à classe política — sobretudo aos políticos republicanos que restam — retomar as questões centrais do país, aquilo que verdadeiramente importa, em vez de se pautar por aqueles que se beneficiam do pecado original que nos constituiu.
Devemos enfrentar as tensões reais que existem no país, combater a desigualdade que assombra a maioria dos cidadãos; reconhecer a necessidade de um projeto de defesa nacional; de um projeto de segurança pública efetivo; de políticas que façam a indústria avançar juntamente com o desenvolvimento tecnológico, possibilitando, assim, a soberania nacional; ter coragem para defender uma política monetária que combata os juros abusivos pagos hoje no Brasil a uma minoria, além de preservar as riquezas naturais do país, que serão o verdadeiro ativo do futuro. E para além, reconhecer e ter coragem de defender a “coisa pública” dos interesses escusos privados que tanto vemos assolar esse país, e que colocam um preço em cima de tudo e todos.
Cabe aos republicanos — àqueles que não venderam a alma ao interesse privado nem ao esbulho em benefício próprio — tocar nessas questões e trazer de volta ao debate político o que verdadeiramente importa: um projeto de país grande e soberano.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Mariana Delgado Britez Rigacci
É advogada e mestre em Direito pela UNESP na área de Direito Penal e Política Criminal. Atuou como pesquisadora no Projeto "Mobilização do Direito como resposta à precarização do Trabalho: análise da experiência brasileira na década de 2010", na qual foi bolsista CNPQ. Foi coordenadora do Grupo de Extensão "O exercício da cidadania no acesso à jurisdição", na UNESP.
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