23 de julho de 2024
Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 23 de julho, o especialista em Relações Internacionais Matias Spektor analisou a política externa brasileira e apontou de uma nova compreensão do país e do mundo.
Nascido em Buenos Aires, Matias Spektor se mudou com a família aos 10 anos para Salvador (BA) durante uma crise econômica na Argentina. Aos 17 anos, ingressou na UNB, a única universidade no Brasil com graduação em Relações Internacionais.
É fundador, professor titular e vice-diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Doutor pela Universidade de Oxford, foi pesquisador-visitante de alguns dos mais destacados centros de excelência no mundo e colabora com as mais importantes publicações internacionais da área.
Matias Spektor chamou a atenção para a falta de um debate sobre os interesses brasileiros em relação ao mundo e alertou para como a nossa política externa não acompanhou as mudanças geopolíticas.
“O mundo mudou muito mais rápido do que a capacidade da gente ter um debate criativo, ambicioso, que possa dar um norte seja no progressismo brasileiro, seja na direita brasileira. É o debate que está embargado.”
O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.
Confira a seguir os destaques do episódio!
Crítica à atual política externa
Spektor é crítico da atual política externa brasileira pela falta da inclusão em sua concepção de temas essenciais como a segurança pública, os impactos da revolução tecnológica e o aumento da influência da China.
“Têm áreas centrais de mudança que não aparecem na concepção de política externa. Uma delas é o crime organizado transnacional, que não era um problema sério para o Brasil uma geração atrás, agora é. O segundo tema é a revolução tecnológica com a inteligência artificial, que é igual ou maior do que a revolução industrial. E temos muito pouco para dizer também em relação à China, apesar da ênfase ser na relação Sul-Sul. O Brasil precisa de investimento chinês e isso é muito positivo, mas a gente precisa ter um debate não politizado sobre essa nova dependência”, disse Spektor.
Impacto do bolsonarismo na política externa
Para Matias Spektor, o bolsonarismo eliminou a reflexão sofisticada sobre política internacional na direita brasileira e impactou negativamente na visão de mundo da direita construída desde a redemocratização.
“O debate ficou enormemente empobrecido porque quando você olha para a direita hoje, qual é a visão de mundo e qual é a alternativa a essa crítica do Sul-Sul, o fato é que não é nada. Há alguma proposição genérica de que o Brasil não deveria estar tão vinculado ao chamado Sul Global, mas não há uma proposta.”
“O Brasil é um dos grandes ganhadores com a Organização Mundial do Comércio”
Matias Spektor falou sobre o crescimento do protecionismo no mundo e o papel central do Brasil na construção de novas regras para o comércio mundial.
“A criação de um conjunto de regras formalizadas com capacidade de punir quem viola os princípios do livre comércio foi um instrumento fabuloso na mão do Brasil, que é um país que depende da exportação de matéria prima desde a sua origem. Ou o Brasil toma a dianteira de tentar construir o novo sistema de regras ou sairá perdedor. E o Brasil tem um grande problema nisso, porque o protecionismo hoje em dia está travestido da preocupação com a mudança do clima, e o Brasil é visto hegemonicamente em todo o mundo, de Washington a Pequim, como um país que é um problema para o meio ambiente, não uma solução.”
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