Marcia Tiburi: A misoginia é uma prática discursiva histórica – IREE

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Marcia Tiburi: A misoginia é uma prática discursiva histórica

6 de agosto de 2024

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 6 de agosto, a escritora, filósofa e artista plástica Marcia Tiburi falou sobre as formas de combater a misoginia e defendeu o feminismo como o caminho para um futuro mais sustentável e cuidadoso para humanidade.

Nascida em Vacaria (RS), em 1970, Marcia Tiburi é graduada e mestra em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutora em Filosofia e graduada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Durante 30 anos, foi professora universitária na UniSinos, FAAP, Mackenzie, UniRio e finalizou a carreira acadêmica na Universidade de Paris.

Marcia Tiburi abordou a necessidade de desmontar a estrutura da misoginia por meio da linguagem, a importância da construção de um diálogo lúcido e a implementação de práticas concretas para dar mais espaço às minorias sociais.

“A misoginia é uma prática discursiva histórica e articula simbolicamente a nossa sociedade. Acho que nós precisamos fazer o esforço de desmontar essa estrutura na linguagem e a melhor coisa que a gente tem a fazer é justamente construir um diálogo lúcido e ao mesmo tempo uma prática muito concreta. Mulheres brancas tem que dar espaço para mulheres não brancas, homens para mulheres, homens cis para homens não cis, mulheres cis para mulheres trans e assim por diante.”

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

O que é o fascismo?

Marcia Tiburi falou sobre a ideia de fascismo como uma tecnologia política que ressurge com força no contexto moderno, especialmente quando o neoliberalismo é ameaçado. Ela também discutiu como o fascismo se caracteriza pela mistificação das massas e faz com que grupos sociais ajam irresponsavelmente ao serem manipulados para focar no ódio e na ignorância.

“O que seria o fascismo? A construção desse inimigo que faz um foco na massa odienta. Se a gente vai para uma interpretação psicanalítica, você pega a hipótese de Freud na pulsão de morte e coloca todo mundo a funcionar na pulsão de morte, que, dialeticamente, traz uma compensação erótica gigantesca. Você imagina essas hordas de gente, como a gente viu na Paulista, gozando na ignorância, na burrice, na confusão entre cristianismo e judaísmo, quer dizer, na ignorância bruta, sem entender nada do que está se passando, mas fazendo a socialização pelo mal e tendo um afeto muito fácil para curtir, que é o ódio.”

É possível conversar com fascistas?

Para a filósofa, o fascismo opera como um “jogo de linguagem” publicitário e manipula a forma como as massas pensam e falam. Tiburi destacou que esse fenômeno se caracteriza por uma espécie de “ventriloquacidade,” onde as pessoas repetem clichês e ideias prontas sem reflexão crítica.

“Por que não dá pra conversar? Na verdade, como o fascismo é um jogo de linguagem que é produzido publicitariamente, você coloca as massas a pensarem e repetirem como se fosse uma ventríloquacidade – um conjunto de clichês, de frases feitas e ideias prontas, que vão circulando na sociedade – produzindo sociabilidade e compreensibilidade. Não tem nenhuma inteligência nisso, senão um gozo bastante perverso e uma autocompensação emocional gigantesca no gozo de destruir o inimigo.”

O patriarcado é responsável pela destruição do mundo

Marcia Tiburi propôs uma reflexão sobre como o feminismo poderia levar a um futuro mais sustentável e cuidadoso, em contraste com a exploração e destruição promovidas pelo patriarcado.

“Primeiro que a gente vai continuar existindo como espécie se tudo der certo para as feministas, porque se tudo continuar dando certo para os machistas, acabou o mundo. As provas de que os homens patriarcas, na sua ação soberana violenta, são péssimos, estão dadas. O mundo está destruído. Então, a natureza está destruída, o processo, aliás, isso que a gente chama de patriarcado, é uma colonização dos corpos misturada com uma colonização da terra, e uma atitude sistêmica, planejada, programada, de invadir todos os territórios.”

O mundo está carente de pensamento

A escritora falou sobre como a evolução tecnológica nas mídias alterou nossa percepção das imagens, impactando nossa compreensão visual do mundo, e fez um paralelo, ao afirmar que o feminismo também oferece novas perspectivas para interpretar e entender diversas questões.

“Voltando ao Walter Benjamin, os meios técnicos, a imagem técnica, o cinema e a televisão mudaram o nosso jeito de entender o mundo das imagens. A gente vê diferente. E eu acho que o feminismo também faz a gente enxergar, entender e compreender muita coisa de um jeito diferente. A filosofia não pode só interpretar o mundo, ela precisa transformar o mundo. Só que transformar o mundo significa também fazer pensar esse mundo. Então o mundo está carente de pensamento.”



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