28 de novembro de 2025
“A Gente combinamos de não morrer” foi o grito poético entoado por Conceição Evaristo para cerca de 300 mil mulheres na Marcha das Mulheres Negras, que ocorreu no último dia 25 de novembro em Brasília.
Conceição nos brindou com um chamado à luta e um lembrete especial do necessário pacto entre a coletividade negra que nos fez sobreviver até aqui. Um pacto reafirmando que a reparação e o bem-viver devem ser o horizonte político do movimento de mulheres negras brasileiras por mais uma década.
Crianças, jovens e muitas das nossas mais velhas marcharam por mais direitos e reconhecimento denunciando a violência policial, as injustiças reprodutivas, o feminicídio, a destruição das florestas e dos rios. Demonstrando que o povo negro tem um projeto de país, dedicaram-se a apontar soluções para os nossos desafios como: o fundo nacional de reparação, o fim da escala 6×1 e a necessidade de proteção dos territórios e das comunidades tradicionais como meio de enfrentar a crise climática e alcançar o Bem-viver.
No “Manifesto da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem-viver”, foi a reafirmado a necessidade atuação institucional para a reparação do povo negro, como a Criação do Fundo Nacional de Reparação para compensação dos prejuízos causados pela escravização, com objetivo de equiparação socioeconômica de diferente segmentos raciais da população brasileira, que já está em discussão na Câmara dos Deputados, por meio da PEC 27/2024, conhecida como PEC da Reparação.
Já no Manifesto Econômico da Marcha, traz a necessidade de proteção das trabalhadoras contra a exploração, exigindo a fiscalização efetiva, responsabilização de empregadores e a garantia de direitos em todos os setores para as mulheres negras. De modo que o fazer político entenda que uma das práticas para se alcançar a reparação também seja acabar com escala 6×1 no Brasil e reorganizar a lógica do trabalho para que a vida das famílias negras não se resumam a sobreviver entre jornadas de trabalho.
Desde 2015, quando a Esplanada dos Ministérios recebeu a 1° Marcha das Mulheres Negras com o lema “Contra o racismo, a violência e pelo bem-viver”, reunindo cerca de 50 mil mulheres na capital do país, as mulheres negras destravaram inúmeros avanços para a justiça racial e enfrentamento ao sexismo, mas 10 anos depois, seguimos em marcha “Por reparação e bem-viver”, uma vez que seguimos liderando os rankings como vítimas do feminicídio e da morte materna, as mais afetadas pelo desemprego e pela baixa escolaridade, e as mais afetadas, junto com as mulheres indígenas, pelos efeitos das mudanças climáticas.
Foi bonito ver a celebração da nossa ancestralidade e resistência histórica, numa Brasília enegrecida por mulheres negras de cada canto do país, reivindicando ocupação dos espaços de poder, demarcação e proteção dos territórios, políticas públicas antirracistas e medidas para enfrentarmos a crise climática.
A Marcha das Mulheres Negras aponta o caminho para um reparação plena à população negra, repactuando que “A Gente combinamos de não morrer” para alcançarmos um futuro equitativo e democrático, que passa por garantir o tempo livre, o descanso e o cuidado de si e de nossas famílias, demarcar e titular as territórios tradicionais e originários, acabar com a escala 6×1 e defender a clima como uma etapa para o Bem Viver e para a reparação.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Erika Hilton
Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.
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