Manifestações nas ruas: não existe saída sem mobilização – IREE

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Manifestações nas ruas: não existe saída sem mobilização

Guilherme Boulos

Guilherme Boulos
Coordenador do MTST



As manifestações do dia 29 de maio traduziram o sentimento da maioria dos brasileiros. A rejeição a Bolsonaro, apontada nas pesquisas de opinião, estava latente, mas não havia até aqui se convertido em iniciativa social. Esse passo foi dado por centenas de milhares de pessoas em todos os estados do Brasil.

Não é apenas uma questão simbólica ou de medição de forças com os atos bolsonaristas. É um passo necessário para interromper o genocídio. Nenhum governo cai de maduro. Ao longo da história, as ruas sempre impulsionaram mudanças políticas.

A ditadura militar brasileira entrou nos anos 1980 já em crise, mas não haveria Constituição de 88 sem o movimento pelas Diretas. O governo Collor perdeu rapidamente a sustentação política e midiática, mas é impossível conceber o impeachment de 1992 sem as gigantescas manifestações de estudantes e movimentos sociais. Mesmo o impeachment de Dilma – um golpe parlamentar urdido por Temer e Cunha – só conseguiu avançar após as manifestações lideradas pela direita em 2015.

É inegável que Bolsonaro está no pior momento de seu governo. Perdeu popularidade, hoje em torno de 25%. Promoveu a pior gestão do mundo na pandemia, sendo responsável por mais de 460 mil mortos no país. É incapaz de apontar qualquer saída para a crise econômica e social, que nos levou a 14 milhões de desempregados e devolveu o Brasil ao mapa da fome. E está em conflito com a direita tradicional e setores importantes da cúpula das Forças Armadas, que decidiram não embarcar em suas aventuras autoritárias. Seu governo se sustenta hoje unicamente em três pilares: o pacto fisiológico com o Centrão, o apoio de parte da elite econômica e a mobilização dos fanáticos de extrema-direita.

E mesmo aí existem fissuras, sobretudo em relação à base parlamentar. O Centrão não é fiel a nenhum governo, mas somente a seus próprios interesses. O declínio da força e do prestígio de Bolsonaro abre a possibilidade para o desembarque. Nenhum parlamentar em busca de reeleição quer ficar ao lado de um presidente tóxico. A CPI da pandemia tem acelerado a deterioração do ambiente político em Brasília e deixado Bolsonaro cada vez mais acuado.

Faltava a rua e ela veio. Tardou, é verdade, pela preocupação dos movimentos sociais com o cenário da pandemia. Havia uma avaliação de que o melhor seria esperar o fim da crise sanitária para, só então, se mobilizar contra Bolsonaro. Mas a segunda onda e o risco de uma terceira deixaram claro o seguinte: não há saída para a pandemia com Bolsonaro no governo. Ele não atuará de forma decidida pela vacinação em massa, seguirá boicotando medidas sanitárias e incentivando remédios sem eficácia.

Se Bolsonaro permanecer até o fim de 2022 provavelmente teremos uma pandemia rastejante, com sucessivos picos e sem horizonte de superação. Pior, com campo livre para o surgimento de novas variantes, que podem ser resistentes às vacinas. O custo humano é inestimável.

Por isso, a decisão de ir às ruas. E o último sábado mostrou que é possível fazê-lo sem engrossar o caldo do negacionismo. Todas as pessoas estavam de máscara, houve orientação permanente da organização pelo distanciamento e equipes de saúde voluntárias estiveram presentes com álcool gel nos locais de encontro. Não há comparação possível com as caravanas da morte promovidas por Bolsonaro, em que usar máscara é quase um constrangimento.

As manifestações devolveram o protagonismo às ruas e, com isso, abriram um caminho. A possibilidade do impeachment, embora tenha muitos obstáculos, entrou na agenda. A ideia tacanha de fazer o governo sangrar até 2022 ignora o fato de quem está sangrando é nosso povo. Precisamos virar a página desse pesadelo o quanto antes. São vidas que estão em jogo. Para isso, novas mobilizações deverão ser convocadas, consolidando a entrada deste novo velho ator na cena política de 2021: o povo. Tenho certeza que os movimentos sociais saberão fazê-lo, com a mesma responsabilidade política do dia 29 e reafirmando os protocolos sanitários. Não existe saída sem mobilização.



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Guilherme Boulos

É professor, diretor do Instituto Democratize e coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo.

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